Livro: A duração da dor

Dança e Perdão

A África do Sul escolheu seguir, como corpo nacional, um caminho longo, íngreme e insólito chamado reconciliação, tendo como líder Nelson Rolihlahla Mandela. Madiba, como era carinhosamente chamado o pai da nação sul africana, acreditava que para as pessoas negras, oprimidas, serem livres era necessário que as pessoas brancas, opressoras, também o fossem. Para isso, concordando com seu amigo Desmond Tutu, reconheceu que era necessária a escolha do perdão.

Em 1976, no Brasil, ao ouvir, ver e ler as notícias da África do Sul, eu menina, me identificava com as meninas da África do Sul, e mesmo à distância, como uma personagem coadjuvante, participava do drama de algumas e do trauma de muitas outras. Os frágeis corpos negros sendo alvejados é uma imagem que me assombra até hoje. Mas ver um grupo de estudantes uniformizados dançarem toyi-toyi na linha de frente, no confronto com policiais, observar seus passos destemidos diante da morte me intrigava. Que dança é essa?

Essa pergunta me levou para a África do Sul. Em Soweto deparei-me com a arquitetura do apartheid. Caminhando de mãos dadas com a minha filha pelas ruas da Cidade do Cabo, tentei observar como o gesto do aperto de mãos entre Mandela e De Kleck era imitado pela comunidade sul-africana.

Instalada na Faculdade de Dança da UCT University of Cape Town, acompanhei a vida dos estudantes e dançarinos que por ali estavam em ensaios, aulas, estudos, pesquisas e apresentações. Após um período de oito meses de imersão etnográfica, comecei a escuta das vozes do silêncio. Convidei dançarinos de diferentes modalidades [dança africana, indiana, comunitária, balé clássico]; e líderes espirituais de religiões distintas [africana, cristã, islã e judaísmo] para falarem de suas experiências com o toyi-toyi, o perdão, o silêncio e a criança como metáforas da esperança.

Essa escuta revelou um rico repertório de depoimentos, informações e confissões. O que fazer com essas palavras? Relatos? Relatórios? Artigos? Vieram ensaios, danças e conversas dançadas. E, agora, apresento aqui o meu ritual de iniciação na literatura: ficcionar poeticamente a dura realidade do apartheid.

Dez personagens centrais, entre eles estão dançarinas, professores, policiais, mães, líderes espirituais, jovens, pessoas cujas vidas são marcadas pelo regime do apartheid e que tentam juntar as peças para compreender os desafios da reconciliação. Para uns, o perdão se configura como o primeiro passo para se reconciliar consigo mesmo. Para outros, o perdão se apresenta como a possibilidade de assumir um compromisso com o ser no mundo.

Cada personagem apresenta seus dilemas psicológicos, filosóficos, espirituais, intelectuais, políticos, afetivos, artísticos e existenciais que envolvem a vida e a morte. O que se põe a ver é a vida com seus desafios, que simultaneamente oferece a cada ser atitudes criativas e contemplativas no corpo, na dança e na meditação, espaços sagrados para a reconciliação. Desses lugares redescobrimos a alegria, a liberdade e a compreensão.

O conto “A duração da dor, primeiro volume da série “Dança e Perdão” convida a leitora e o leitor para uma jornada criativa acerca das possibilidades do perdão.

Sinopse

Na última década do regime apartheid na África do Sul, Sharmila Rama, ainda uma menina, testemunha o violento evento conhecido como Cavalo de Troia que ocorre em Atlone, subúrbio da Cidade do Cabo. Dez anos depois, no silêncio do seu quarto, enquanto tenta acender uma lamparina, atormenta-a a culpa por ter negado ajuda para Indra Kallil, seu primo e melhor amigo, minutos antes de ele ser morto no confronto entre estudantes e policiais. Kawany Maal, sua professora de dança clássica Odissi, a ajuda a buscar no Sagrado a compreensão da sua fenomenologia da dor. A dança e a meditação são as fontes de sabedoria através das quais ela ilumina a razão para perdoar a si mesma e avivar a chama da alegria de viver.

Comentários das Leitoras

“ Fiquei muito entusiasmada com a leitura. Quanta sensisibilidade e potencial na sua descrição… Ao percorrer os escritos fui tomada pela vida, pela dor e angústias de Sharmila, mas igualmente pela busca do lugar do perdão….e, a dança de forma singular, arrastando-a para as alegrias da vida! Confesso que me encontrei muito nessa passagem…
‘Quando está a dançar sente-se chamada pelo seu nome…’ Quanta lindeza !!!”

Danieli Alves Pereira Marques [Doutora em Educação Física pela UFSC. Professora efetiva da Universidade Estadual de Roraima (UERR). Atua na área de dança e educação, corpo e linguagem]

“Enternecedor!!!! Uma ponte construída entre a África e a Índia, com uma intensidade delicada e escrita primorosa.
E sobre a dor… assim como a dança Odissi é uma importante parte dos rituais diários de adoração, a dor faz parte da essência humana.
É admirável como conseguiu transcrever com leveza e “beleza” este sentimento que as vezes escondemos tanto. Acredito que a dança e a meditação sejam o veículo para essa compreensão e (in)diretamente para a compreensão de si mesmo, e foi exatamente o que senti lendo seu conto.
Confesso que me vi na menina Sharmila em alguns momentos…
Lembrei de Gibran:
“… e passaríeis com serenidade os invernos das vossas mágoas. Muita da vossa dor é escolhida por vós. É a poção amarga com a qual o médico dentro de vós cura o vosso interior doente.”
Lindo conto! Uma poesia para se falar da dor e das transformações interiores que este sentimento traz!”

Adriane Martins [Professora de Dança e Dançarina de Dança Indiana]

Participe do Lançamento: 

Barca dos Livros dia 18/10/2018 – das 19h às 20:30.

Sentir dor! Nem pensar?

Sentir dor! Nem pensar?

Agora. Enquanto escrevo esse post, penso  que, talvez,   você esteja com muita pressa, e se eu não prender sua atenção em 5 segundos, você estará  indo para outra página. Mas,  arrisco  contar  uma história para você, que me vem à mente enquanto faço minha caminhada contemplativa  na praia do campeche.

“Era uma vez… uma lebre e uma tartaruga.
A lebre vivia caçoando do andar vagaroso da tartaruga.
Certa vez, a tartaruga já muito cansada  de ser ridicularizada, desafiou a lebre para uma corrida.
A lebre muito segura de si, aceitou sem pensar.
Não perdendo tempo, a tartaruga pois-se a caminhar, com seus passos lentos, porém, firmes.
Logo a lebre ultrapassou a tartaruga, e vendo que ganharia fácil, parou e resolveu cochilar.
Quando acordou, não viu a tartaruga e começou a correr.
Já na reta final, viu finalmente a tartaruga cruzando a linha de chegada, muito sorridente.”

Escolher andar devagar é  um exercício e tanto, na sociedade da velocidade e das gratificações instantâneas.

Passo

Passarinho

Olhar

A montanha

Sustenta o caminhar

T.S. Eliot nos  alerta que “em um mundo de fugitivos, a pessoa que anda em direção  contrária parece estar fugindo.” Para onde vamos com tanta pressa?  Estamos  com  medo de sentir dor? 

As práticas  contemplativas, nos ensinam a vivenciar o momento presente, seja  esse momento doloroso ou não. A transformação da dor, não está em negar esse sentimento nem  de super estimá-lo, como satiriza a composição de Paulo Leminsky e Itamar Assumpção A Dor Elegante

“Um homem com uma dor
É muito mais elegante
Caminha assim de lado
Como se chegando atrasado
Andasse mais adiante…

Carrega o peso da dor
Como se portasse medalhas
Uma coroa
Um milhão de dólares
Ou coisa que os valha…

Ópios, édens, analgésicos
Não me toquem nessa dor
Ela é tudo que me sobra
Sofrer vai ser!
A minha última obra
Hum! Hum!…”

Sátira ou não, a dor faz parte da vida.

Mas,  o segredo da duração da dor está em nossas mãos, e não só na nossa cabeça.

Caso esse tema te interesse,  venha participar  da

Oficina #3 Segredos para Transformar Suas Memórias Corporais.

Quarta-feira  das 16:30 às 18h

no Espaço Nutrir  

Av. Afonso Delambert Neto, 885.

Lagoa da Conceição.

Evento Gratuito.

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E caso você tenha um tempinho, veja o vídeo sobre as

Jornadas da Primavera – Mude Sua História e vivencie o poder de sua alegria

 

 

Colaboração Criativa

Colaboração Criativa

Com carreira artística iniciada nos anos 1990, Silvana Macêdo alcança reconhecimento pela amplitude de suas pesquisas que, em diferentes linguagens, aproximam arte, ciência e feminismo, entre outras abordagens. Suas ações se situam no campo do artivismo, termo associado a experimentações estéticas que problematizam e adotam estratégias de discussão em torno de certas causas. No ano passado, período intenso e vibrante, expôs pinturas, gravuras, fotografias, instalações e conquistou o Prêmio Elisabete Anderle de Estímulo à Cultura para realizar o projeto Intraduzível, a exposição aberta no dia 2 de agosto, às 19h, no MIS (Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina), em Florianópolis.

Ao reunir trabalhos realizados com diferentes colaboradores ao longo de sua trajetória, a artista  Silvana  Macêdo propõe um estudo da sua obra entre 1997 até 2017. A mostra Intraduzível, com curadoria de Juliana Crispe, traz trabalhos inéditos no Brasil criados em colaboração com a artista finlandesa Henna Asikainen, o compositor Frederico Macêdo e o astrofísico iraniano Reza Tavakol.  A produção executiva do projeto é da Lugar Específico, de Francine Goudel, e conta com o apoio da Arts Council England.

Até o dia 9 de setembro, a exposição permite conhecer trabalhos realizados no Reino Unido, onde Silvana Macêdo estudou na Northumbria University, Newcastle. Voltada aos multimeios, ela investiga a complexa relação entre arte, ciência e natureza. Nascida em Goiânia em 1966, moradora de Florianópolis desde 2004, onde atua como professora do Departamento de Artes Visuais da Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), ela pinta, grava e transita em pesquisa telepresença, tecnologias novas e antigas.

Os trabalhos que compõem a mostra são uma série de fotografias e as videoinstalações lab (2017), ar (2001-3), lua (2005-7), a videoinstalação sonora cooperari (2007) e a instalação trabalho de campo (2017). Um dos elementos centrais destas obras, explica Silvana Macêdo, é a noção de tradução, compreendida mais como uma dinâmica ao invés de uma influência, pois tradução está na base mas não é o tema. “Nessa prática estamos conscientes do processo tradutório, ou mais precisamente, da transformação que ela acarreta. Os trabalhos podem ser entendidos como envolvidos num processo tradutório, pois a representação da natureza pela arte e ciência pode ser compreendida como uma tentativa de traduzir a natureza através da linguagem artística e científica”, diz ela.

Equipe técnica 
Artistas: Silvana Macêdo, Henna Asikainen, Frederico Macêdo e Reza Tavakol
Curadora: Juliana Crispe
Produção executiva: Francine Goudel – Lugar Específico
Ação educativa: Silvana Macêdo
Montagem: Flávio Brunetto
Fotografia: Endrigo Righeto
Designer digital: Alecxandro Nascimento
Assessoria de imprensa: Néri Pedroso

Serviço da Mostra
O quê: Mostra Intraduzível
Quando: 2.8.2018, 19h (abertura).  Até 9.9.2018, terça a domingo, 10h às 21h
Onde: Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina, av. Gov. Irineu Bornhausen, 5.600, bairro Agronômica, Florianópolis, tel.: 3664-2555
Quanto: Gratuito

Serviço da visita mediada 
O quê: Visita mediada com Silvana Macêdo
Quando: 22.8.2018, 19h
Onde: Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina, av. Gov. Irineu Bornhausen, 5.600, bairro Agronômica, Florianópolis, tel.: 3664-2555
Quanto: Gratuito
Perfil do público: evento aberto, voltado a estudantes dos cursos de graduação e pós-graduação em artes visuais, cinema, música, além de artistas e pesquisadores dessas áreas; grupos comunitários interessados na relação da arte com a ecologia e defesa do meio ambiente, biólogos e ambientalistas

Serviço da palestra 
O quê: Palestra Conversa Intraduzível com Ana Ferreira Maio
Quando: 29.8.2018, 19h
Onde: Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina, av. Gov. Irineu Bornhausen, 5.600, bairro Agronômica, Florianópolis, tel.: 3664-2555
Quanto: Gratuito
Perfil do público: aberto, estudantes de cinema, artes visuais, design ou áreas afins

Serviço da oficina
O quê: Festival de Vídeo 24h Arte & Meio Ambiente, com Silvana Macêdo
Quando: 31.8 a 1.9.2018
Onde: Museu da Imagem e do Som de Santa Catarina, av. Gov. Irineu Bornhausen, 5.600, bairro Agronômica, Florianópolis, tel.: 3664-2555
Quanto: Gratuito

Realização: MIS (Museu da Imagem e do Som, PPGAV (Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais), Ceart (Centro de Artes), Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina)
Apoio: Arts Council England
Produção: Lugar Específico