Uma carta para quem deseja conhecer um pouco da minha história
Onde nascem os livros que escrevo, os processos criativos que ofereço e as perguntas que continuam movendo o meu ser no mundo?
A resposta talvez não comece na universidade, embora esse tenha sido um capítulo importante da minha vida profissional. A história começa bem antes, na infância.
Sou filha de Felícia e Manoel. Foi com meus pais, meus irmãos e minhas irmãs que aprendi que o estudo podia ser um caminho para a liberdade. Cresci entre cidades, bibliotecas, leituras, dança e trabalho. Desde cedo descobri que algumas perguntas seguem conosco por muitos anos e, em vez de exigirem respostas instantâneas, pedem uma vida inteira de atenção.
Muitas foram as questões que me conduziram à Pedagogia, ao mestrado, ao doutorado e aos pós-doutorados realizados no Brasil, na Inglaterra e na África do Sul. Ao longo de mais de três décadas como professora universitária, pesquisei o desenvolvimento humano, a dança, a inclusão, a criatividade e os modos pelos quais o corpo guarda memórias, expressa diferenças e também pode experimentar reconciliação.
Mas a formação que mais transformou minha maneira de perceber o mundo não aconteceu apenas nas bibliotecas.
Aconteceu nos relacionamentos com as pessoas que encontrei pelo caminho.
Nas comunidades onde vivi, nas amizades construídas em diferentes países, nas pessoas com quem dancei, nas trocas com estudantes que me ensinaram tanto quanto procurei ensinar e, de maneira muito peculiar, na maternidade. Hannah, minha filha, cresceu acompanhando muitas dessas travessias.
Quando fui desenvolver minha pesquisa sobre dança e perdão na África do Sul, ela tinha apenas seis anos e esteve de mãos dadas ao meu lado. Continuo aprendendo com ela novas formas de perceber o mundo e de acolher a vida em suas mudanças.
Depois da aposentadoria na universidade, os estudos continuaram. Vieram novas formações, o aprofundamento da escrita literária, da liderança, do mercado editorial, da teologia e das práticas de equilíbrio emocional. A meditação cristã, presente na minha vida desde 2004, tornou-se um dos lugares onde alimento o silêncio, a escuta e a esperança que sustentam o meu viver.
Hoje, ao olhar essa trajetória, percebo que existe um fio unindo todos esses caminhos. Os estudos são, para mim, mais do que o acúmulo de conhecimento. São uma via para compreender melhor a experiência humana e encontrar maneiras mais belas, generosas e éticas de habitar o mundo.
É por isso que aprecio as palavras de Hannah Arendt quando afirma que compreender é a forma humana de reconciliar-nos conosco mesmos, com os outros e com o mundo. Essa ideia nutre a minha escrita há muitos anos e continua iluminando o que faço.
Os livros, as cartas, as mentorias, as palestras e os processos criativos que compartilho são frutos dessa caminhada. Não são fórmulas prontas, mas convites para habitar o momento presente com mais atenção, reescrever as próprias histórias e descobrir que mesmo as experiências mais difíceis podem se revelar como fonte de transformação pessoal.
Espero que estas palavras despertem sua curiosidade e que, em algum momento, nossos caminhos possam se encontrar, seja através de um livro, de uma carta ou em uma conversa dançada.
Grata por sua leitura.
Abraço com alegria,
Ida Mara