Dançar Nossas Histórias:  Um Exercício de Memória

Dançar minhas histórias, eis aqui meu exercício de memória de uma atividade que aconteceu há mais de um ano durante o Festival Múltipla Dança, que mantém sempre atualizado o  seu compromisso com a inclusão ao oferecer  em sua programação uma variedade de atividades que atenda à pluralidade humana. Dentre essas a oficina e a mostra do processo criativo “Dançar Nossas Histórias” oferecida pela Cie.“à fleur de peau” (França).

Participar dessa oficina e escrever sobre ela parece-me uma pertinente oportunidade de refletir sobre o envelhecimento em um contexto social atual. Afinal, analisa Paul Valéry:

Quer se trate de política, economia, modos de viver, divertimentos, movimento, observo que o modo de ser da modernidade é exatamente o de uma intoxicação. Precisamos aumentar a dose, ou trocar de veneno. Essa é a lei. Cada vez mais adiante, cada vez mais intenso, cada vez maior, cada vez mais rápido, e sempre mais novo, essas são as exigências, que correspondem necessariamente um certo endurecimento da sensibilidade.

Precisamos, para sentir que estamos vivos, de uma intensidade cada vez maior dos agentes físicos e de diversão perpétua…Todo o papel que era desempenhado, na arte de outrora, pelas considerações de duração foi praticamente abolido. Creio que ninguém faz nada hoje para ser apreciado daqui a 200 anos. O céu, o inferno e a posteridade perderam muito da opinião pública. Aliás, não temos mais tempo de prever e aprender…

 O que chamo de “Grande Arte” é simplesmente a arte que exige que todas as faculdades de uma pessoa sejam utilizadas nela, e cujas obras sejam tais que todas as faculdades de outro sejam invocadas e se interessem por entendê-las.  

Como constava na programação, a oficina de dança-teatro foi dirigida para pessoas acima de 60 anos com motivação e desejo de participação assídua, e tinha como objetivo principal a prática do movimento lúdico, tratada com muito humor e sensibilidade. A partir do simples prazer da dança, continuar a desenvolver o exercício de memória e liberar o imaginário. Em poucas palavras, como se expressar com o seu corpo e dançar inspirando-se por exemplo em suas próprias histórias, lembranças e gestos. Desenvolver a relação dos indivíduos dentro de um grupo, criar um espaço de liberdade, de criatividade e levar o lado humano ao centro de uma prática artística.

 A Companhia de dança é  formada pela brasileira Denise Namura e pelo alemão Michael Bugdahn. Os artistas vivem em Paris desde 1979, onde fundaram a Companhia «à fleur de peau» em 1989. Desenvolvem peças coreográficas híbridas, com o gesto carregado de sentido, uma escritura poética e um humor tragicômico, e com um grande enfoque na troca e na cumplicidade com o público. Consideram o ensino e a partilha de conhecimento como elementos essenciais de sua pesquisa.

Olhando a programação da edição do Múltipla Dança realizada remotamente em maio de 2021, fiz uma seleção prévia das atividades que eu estaria envolvida e escolhi a oficina “Dançar Nossas histórias”, além de inspiração para escrita, ofereceria uma oportunidade para refletir sobre a experiência de dançar aos 60 anos de idade, no contexto da dança contemporânea. Nessa leitura você irá encontrar múltiplos textos: uma corpografia de minha autoria, um comentário de Marta Cesar, curadora do festival, um trecho da entrevista com a ministrante da oficina Denise Namura, o depoimento da participante Karin Veras.

Corpografia

A “corpografia” pode se assemelhar aos “biografemas” criados e definidos por Roland Barthes, como “Gosto de certos traços biográficos que, na vida de um escritor, me encantam tanto quanto certas fotografias; Chamei esses traços de “biografemas”; A fotografia tem a mesma relação com a história que o biografema com a biografia ”(Barthes, 1980: 51).

Aqui, procuro uma escrita comovente, que se articule num deslocamento do gesto que escreve para o gesto que dança, da mesma forma que a dança se desloca para uma escrita que denota as marcas de passos, lapsos e lampejos de uma memória corporal.

À maneira de Barthes (1980), a corpografia guarda com a memória corporal a mesma relação que a fotografia tem com a História, e o biografema com a biografia.

Uma vez que você tenha despertado uma memória corporal, a criação de uma corpografia envolve três elementos com suas respectivas três etapas básicas:

1. Silêncio, para ouvir com atenção;

2. Palavra: escrever com os sentidos;

3. Corpo: dançar com o coração.

Neste espaço entre a razão e a emoção, onde algumas realidades tendem a persistir no ser, esta corpografia é criada e um campo de liberdade é traçado sobre o próprio corpo. Ao compartilhar essa corpografia verifico os rastros dos passos de uma dança deixados em mim.

“Ela se movimentou hoje, dançou suas histórias e de outras pessoas também. E novos movimentos apareceram. Seu corpo dançarino foi motivado, provocado a se mexer, explorar rastros e traços cotidianos criativamente. Se deslocar no espaço de um lado para outro da tela. Dançar para vizinhança espectadora de uma janela imaginária. Abrir-se para outras direções no tempo e no espaço de cada um. Elementos cênicos: uma maçã, um lenço vermelho, um cobertor, um cabo de vassoura, um guarda-chuva. Escolheu como imagem uma foto da mãe com sua filha na celebração de aniversário de quatro anos, nota-se olhares e sorrisos expressivos de avó e neta. Dançar a velhice da mãe e a infância da filha. A leveza dos balões coloridos, escolher a doçura diante da possibilidade da dor. O som das mãos se encontrando marcando o ritmo da vida minha, delas, nossas. Voar com um lenço, fluir pelo espaço. Desvelar nos gestos as formas abstratas, linhas, curvas, extensões, prolongamentos, alongamentos dos músculos do corpo e da alma. Escreve palavras e cita em voz alta: Violeta, Perdão, Liberdade, Caminhar, Escrita. Descreve movimentos e cria linhas, movimentos assimétricos, vigorosos, complexos: composição. O corpo todo, mover-se dançar, redescobrir, reler imagens, imaginar.”

Palavras de Marta Cesar,  Diretora e Curadora do Múltipla Dança:

“Ela é brasileira, ele é alemão e juntos conduzem a Companhia “à fleur de peau”  numa sinergia que garante a longevidade desta história com a dança e de dança. Ambos se conheceram no Mimo Corpóreo e desenvolveram uma linguagem poética e autoral característica  que além das criações com a própria companhia, já replicaram em trabalhos com grandes companhias de dança inclusive brasileiras, como o Balé da Cidade de São Paulo, Cisne Negro Cia. de Dança,  Cia. Repentistas  do Corpo tendo destaque dentro de trabalhos voltado ao público infantil como “A mão do meio”(Sinfonia Lúdica ) com a Companhia de Dança de Diadema dirigida por Ana Botosso ou o trabalho com o elenco da Cia. Druw, para o espetáculo “Poetas da Cor” exibido na edição do Múltipla Dança 2021.

Denise Namura e Michael Bugdahn estiveram na edição do Múltipla Dança de 2007, quando também nesta ocasião Denise Namura ministrou oficina compartilhando o desenvolvimento desta linguagem e que nos últimos anos vinham sendo oferecidas para o público de melhor idade principalmente nos projetos do SESC SP. 

Com a pandemia de covid-19, foram enfrentados os desafios da tecnologia para este público, tendo sido realizada pela plataforma zoom nesta última edição com uma simpática Mostra ao final dos encontros.”

Dança Contemporânea para Pessoas com +60 anos

Nas palavras de Denise Namura  

“Trabalho como coreógrafa e bailarina junto com Michael Bugdahn e temos essa companhia fazem agora 32 anos aqui na França. Na verdade o nosso trabalho pedagógico começou há 35 anos e nós gostamos muito de ensinar e aprender, e aprender e ensinar.

Nossa companhia já criou mais de 45 espetáculos. Em nossas aulas nós tentamos aplicar nossas criações e vice-versa a gente pega as coisas que criamos para incluir em nossas aulas. 

Nós já havíamos participado do Múltipla Dança muitos anos atrás, presencialmente em Florianópolis. A Marta Cesar pensou em nos incluir esse ano na programação, por causa do trabalho que  fizemos com pessoas idosas do Sesc Vila Mariana, São Paulo em 2019, ela ficou entusiasmada e nos convidou para trabalhar no Festival.

As crianças, os profissionais, todos os públicos, para nós não têm problema. É sempre muito bom trabalhar com situações que se inscrevem público completamente diferente. Por exemplo, na oficina misturou-se  pessoas de terceira idade de vários estados diferentes do Brasil, não ficou só concentrado em Florianópolis. É claro que a particularidade desse ano foi o zoom, sim, a nossa novidade desse ano foi o zoom.  

Nós trabalhamos com uma tela e um oceano nos separava de vocês. Passamos um bom tempo nesse confinamento todo procurando exercícios de dança que pudessem responder com essa configuração remota. Indagávamos, como podíamos fazer, ao estarmos longe das pessoas, corrigir uma sequência de exercícios? O que seria possível utilizar, das coisas que as pessoas têm em casa, para poder criar e poder abrir o imaginário? Que coisas do cotidiano que podem virar dança? Impulsões muito simples  do dia a dia que nos levam a novos movimentos. Então, isso foi uma coisa importante  dentro do nossa proposta e que  pertencem a linguagem que nós praticamos.  

A participação dos alunos foi intensa, muito intensa, pois foi muito pouco tempo, só três dias. A mostra de trabalho ficou linda também, considerando esse pouco tempo, o vídeo ficou  um pouco longo porque tinha tanto material. O que se percebe nessa apresentação: muita emoção, muita realização, muita satisfação e sentido. As pessoas  sentiram confiança. Confiança desse corpo que envelhece. Justamente, que nós achamos que envelhece, mais que podemos  também perceber como um corpo que está na flor da idade.

Foi muito gostoso, adoramos esse convite e a participação das pessoas inscritas, porque a frequência foi quase 100%,  que é uma coisa muito rara.

Nós achamos que como brasileiros com o mínimo de coisas, nós  já estamos criando muito. Isso é muito importante e eu também fico impressionada como que esse nosso trabalho, essa nossa maneira de propor uma linguagem, e como ela pode ser também humana nesse contexto tão virtual.”

As aulas da oficina aconteceram nas tardes de 26 a 28 de maio, devido a pandemia ocorreram por meio de uma tela, num espaço virtual. Com os participantes foram criados alguns módulos dançados a partir de certas indicações, utilizando elementos dos espaços onde estavam vivendo durante o confinamento e/ou ligados às suas próprias histórias. Os coreógrafos também sugeriram o aprendizado de algumas sequências dançadas.

Palavras de Karin Maria Véras sobre sua participação na Oficina “Dançar Nossas Histórias” conduzida pela Cie “À Fleur de Peau” no Festival Múltipla Dança edição 2021.

“Embora com 53 anos fui admitida/selecionada para a Oficina “Dançar Nossas Histórias” e foi uma alegria poder ser conduzida por Denise Namura e Michel Bugdahn, bem como compartilhar as histórias inscritas em meu corpo junto a pessoas, a maioria com 60 anos ou mais, que carregam em sua trajetória um longo e rico percurso de vida e que, como eu, apreciam expressar sua  biografia através do movimento-dança.

Fui gratamente atravessada pela metodologia dos professores que, a partir de gestos cotidianos e de materiais de uso comum como cabo de vassoura e guarda-chuva, transformaram nossos gestos habituais em poesia no espaço, alargando e expandindo as possibilidades do corpo com ludicidade e bom-humor.

Tocou-me especialmente o exercício no qual um dos integrantes descrevia os contornos de uma pintura ou foto de sua escolha para que os outros se movessem com a cena narrada. Notei que essa dinâmica trouxe à tona  memórias, sentimentos, visualizações e movimentos que entrelaçaram  nossas histórias pessoais no coletivo, e assim, pudemos compor uma comunidade dançante tanto efêmera quanto pulsante. Este entrelaçamento me trouxe a sensação de estar situada em meu próprio espaço-corpo e ao mesmo tempo de ser projetada para outros espaços-tempos criativos, ampliando a  percepção de mim mesma, dos outros e do entorno, a partir de afetos compartilhados.”

Considerações “Iniciais sobre Envelhecimento e Dança

A partir de sua experiência quando esteve profundamente afetada por enfermidades, Simone de Beauvoir (1908-1986) refletiu e escreveu acerca do envelhecimento.  Como seres humanos idosos, Simone Beauvoir sinaliza, que o corpo é transformado, não somente no sentido físico, mas, principalmente no sentido das possibilidades existenciais serem mais restringidas.

De um lado o corpo idoso é visto como em processo de deterioração – como se deteriorando. As pessoas idosas indagam-se, se elas podem permanecer sendo elas mesmas a despeito de se tornarem aparentemente diferentes, há sempre um risco de se verem de modo que as pessoas as veem.

Em ordem de solucionar essa crise de identificação a pessoa idosa teria que aceitar  uma  nova e indefinida imagem de si mesma. Vale refletir na  pergunta:  qual seria a consequência  que uma suposta imagem de si oferece quando isso  começa a se tornar sentido possível de vida? E como tal sentido pode ser alterado em um contexto artístico?

Simone de Beauvoir relaciona sua experiência de enfermidade quando essa sofreu dois acidentes fatais que a levou muito próxima da morte. Isso fez ela perceber que uma pessoa doente perde a sua individualidade e sem engajamento com outras pessoas, se torna um objeto para os outros, e isso a reduz em um “pedaço de carne”.

Desse modo, ela observa como as mudança corporais  alternam a experiência dos seres humanos com o tempo. A humanidade age no tempo presente tendo em vista objetivos específicos relacionados com o futuro. Para as pessoas idosas, o futuro parece breve.

A consciência da mortalidade guia a experiência humana. Ao reconhecer como um ser humano  com tempo limitado em sua própria  vida, a pessoa em processo de envelhecimento tende a se  identificar com os projetos que ela executou  no passado. Com o tempo, os anos passam, o futuro encurta, enquanto o passado cresce pesado.

Envelhecer muitas vezes tornam as pessoas famintas pelas memórias da infância e da juventude, por causa do encolhimento do futuro. Com isso, muitas se refugiam no hábito e no comportamento repetitivo. A memória vincula os seres humanos com o passado. Mas, na velhice uma parte da memória não parece mais confiável. Neste contexto de perdas como a vida pode ser levada a sério? Qual é a possibilidade para ser e se tornar, a despeito do encolhimento rápido do futuro?

Embora a velhice seja um processo universal, a experiência de envelhecer não é a mesma para cada pessoa, pois depende das suas condições de saúde e das situações socioculturais que  elas vivem. Envelhecer para quem é  intelectual é diferente  de quem é trabalhador braçal ou uma pessoa artista.

Nesse caso as palavras de Joan Chittister  podem ser para nós um esperançoso ancoradouro: “quando compreendemos as dimensões de uma situação com todos os seus perigos, todos os riscos, todas as suas exigências, a calma é a única coisa que nos manterá prontas para enfrentá-la, capazes de sobreviver, aconteça o que acontecer.”

A oportunidade de dançar as histórias que compõe nossa corpografia, nossa memória corporal, como na oficina “Dançar Nossas histórias” oferecida pela Cie.“à fleur de peau” no Festival Múltipla Dança, desperta em nós a busca de algo que dê sentido à nossa existência, seja dedicarmos a uma pessoa ou a um  grupo de pessoas,  às causas sociais, políticas, intelectuais ou  ao trabalho criativo, dançar nossas histórias pode nos ensinar nesse estágio de desenvolvimento a dar um passo de cada vez na dança da vida,  viver  um dia de cada vez e  lembrar que a eternidade a Deus pertence.

 *As capturas das telas do  Zoom e  do Youtube são de Cristiano Prim

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