Experiência Corpo e Liberdade

É com muita alegria que compartilho com você o prefácio do livro de Luana Mara Pereira,  recém-publicado  pela a editora Appris.

“Tudo começou com dores que me latejavam o corpo e o contato com filosofias que e levaram a compreendê-lo de outra forma.” Assim começa a jornada da escrita da dissertação de Mestrado de Luana Mara Almeida, intitulada: Experiência, corpo e liberdade nas jornadas em dança; que tive a alegria e o prazer de orientar. E que agora se apresenta, em uma versão adaptada, em livro.

 

Mas, não se trata de uma simples adaptação. O que distingue o livro que você irá ler, de outras adaptações de textos acadêmicos são os processos criativos que esse descreve, e faz isso fiel à inspiração fenomenológica adotada pela autora. Pesquisadora primorosa, Luana Mara escreve um texto-convite para o leitor perceber-se com o outro que escreve.  Perceber que as palavras escritas são compostas em diálogo com outros corpos. Entre linhas, a pessoa que lê irá surpreender-se olhando no espelho e ver que seu corpo, ou parte dele, está ali, ilustrado, traçado ou melhor dizendo, dançado.

Ao relatar dois processos criativos interligados Luana, escreve: “Tendo eu, corpo,, sido marcada por dores e sofrimento físico nos últimos dois anos e estando desejosa por compreender a relação entre corpo e liberdade, lanço-me nesta vivência com as Jornadas, que, por tanto que me afetou, acabou por torna-se o locus da presente pesquisa.”.  As Jornadas em Dança, como um processo criativo, foi criado durante o período que desenvolvi os projetos de pesquisa e extensão universitária de ensino e apreciação da dança com os dançarinos não visuais na Associação Catarinense para Integração da Pessoa com Cegueira.  O segundo é a experiência da autora em seu Estágio Docência, que supervisionei, como parte da sua formação docente, durante seu Mestrado em educação na Ufsc.  Na qual ela acompanhou um grupo de estudantes do curso de Artes Cênicas dessa mesma intuição, matriculados na disciplina optativa intitulada:  Fenomenologia da Dança.

 

O processo Jornadas em Dança surge da indagação: Como uma pessoa com cegueira pode apreciar a dança?  É fundamentado na dança educação – que demonstra que a apreciação entrelaça percepção, execução e criação da dança. Nesse processo também assume-se a atitude fenomenológica, e na trilha das leituras da obra do filósofo francês Maurice Merleau-Ponty, indaga-se “Que sei eu acerca da dança?”, e intui-se “Que cada corpo tem sua própria dança.” Assim, estrutura-se dez Jornadas com vistas possibilitar a criação da dança que cada corpo trás consigo, de suas experiências vividas como ser no mundo. Exemplificando: da primeira à quinta busca-se acessar e despertar os sentidos, descobrir os movimentos e outras sensações, perceber o corpo como dádiva: a dança como coragem de ser. Na sexta e na sétima jornadas busca-se redescobrir o sentido da vida, recriar a própria existência: para isso é necessária a coragem para criar. Nas três últimas jornadas, entrelaçam -se o feminino e o sagrado, celebramos a existência em sua plenitude e beleza: a liberdade do voo exige a coragem de amar.

 

Apresentando-se numa relação figura-fundo, as Jornadas serão o fundo dessa gestalt que o texto da Luana Mara irá descrever como figura – as experiências do corpo em liberdade.

 

A experiência, o corpo e a liberdade são os três pilares que sustentam suas palavras dançadas.  Para que a dança comece, antes do primeiro passo, antes do segundo gesto, deve-se cada um dizer em voz alta, para o grupo todo ouvir. “Eu sou responsável pelo meu corpo.”  A dança no espaço educacional é uma experiência estética, lembrando que essa palavra é composta pela palavra “ética”. E é isso que o trabalho de Luana Mara desvela com razão e sensibilidade:  o cuidado do corpo que dança, que experimenta dor, medo, até mesmo rancor. Mas, os relatos aqui generosamente descritos, demonstram que a experiência do ser no mundo é acompanhada de vulnerabilidade, que quando apreciada, podemos ver a beleza expressa com toda liberdade.

 

Para dar uma mirada rápida no texto-espelho, apresento aqui uma das transcrições do trecho do diário de “Beija-flor”. O Poema-oração que Luana meticulosamente selecionou para favorecer o exercício perceptivo durante a leitura.

 

 

“Hoje sou mais eu.

Um dia acordei cansada

De assumir algo que não era meu

De concordar com a média

Em relação ao ideal de beleza

Mas o que é a beleza? O que é belo?

 

Cortei! Cortei relações

Com a média, com a sociedade

Inclusive meu cabelo

Assumi minha ancestralidade

Foi descoberta, é empoderamento.

Hoje posso tomar chuva

Banho de mar, de piscina

Sem me preocupar

Água não é mais problema

O problema é o preconceito

Viva a liberdade!

 

Eis o convite que faço para o leitor e a leitora desse breve prefácio, despertem seus sentidos e entrem de corpo inteiro na leitura desse sensível e delicado trabalho da atriz, discípula e amiga Luana Mara.  E descubram o que acontece numa cidade parada, quando as coisas começam a ser movimentadas…

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