Um dia, um passo… Um dia, uma página.

Ela caminha na praia, após deixar a filha na escola. Uma manhã outonal. A areia fofa convida para ser sentida de corpo inteiro. Ela tira as sandálias ao se aproximar da água.
Molha os pés renova-se no mesmo instante.
O sol, o mar, a ilha, a montanha, as dunas, realidade pura a sustentar seu lento caminhar.
É assim que ela percebe que está viva.
O corpo está mais leve. Avalia.
Nota a dificuldade de caminhar no ritmo lento ao se perceber diante da vastidão da praia,
o barulho das ondas,
a memória dos passos ligeiros já apagados em seu vago pensar…
Desacelera.
Busca apoiar o olhar.
No pássaro, na concha, na rocha em alto mar.
O passo se afunda, a medida que água inunda o caminhar e os pés ficam sem base firme para o corpo equilibrar.
Um novo mês, um novo ano, um novo projeto: Um dia, uma página.
Qual será o seu próximo passo?

O gosto dos caminhos recomeçados
“O que te peço, Senhor, é a graça de ser.
Não te peço sapatos, peço-te caminhos.
O gosto dos caminhos recomeçados, com suas surpresas e suas mudanças.
Não te peço coisas para segurar, mas que as minhas mãos vazias se entusiasmem na construção da vida.
Não te peço que pares o tempo na minha imagem predileta, mas que ensines meus olhos a encarar cada tempo como uma nova oportunidade.
Afasta de mim as palavras que servem apenas para evocar cansaços, desânimos, distâncias.
Que eu não pense saber já tudo acerca de mim e dos outros.
Mesmo quando não posso ou quando não tenho, sei que posso ser, ser simplesmente.
É isso que te peço, Senhor: a graça de ser de novo.”
[José Tolentino Mendonça, Um Deus que Dança]  
 

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