Céu e Terra dos Andes: uma experiência contemplativa

 

Entro na exposição Céu e Terra dos Andes com a sensação de um convite: ver com o coração. Observo as imagens, e elas parecem abrir um espaço suspenso entre o céu e a terra. Lembro-me das palavras de Alberto Manguel: talvez todas as pinturas sejam, em certo sentido, um enigma. Mas nem todas oferecem ao espectador a possibilidade de compor outra imagem — uma imagem ressuscitada — para além da moldura. Algumas imagens nos devolvem apenas o que já sabemos ver. Outras, raras, nos ensinam a ver de novo.

Na noite de abertura, no Instituto Collaço Paulo – Centro de Arte e Educação, em Florianópolis, aproveito um momento da confraternização para retornar ao espaço expositivo e me transportar àquele tempo e lugar dos Andes. A temperatura baixa do ar-condicionado sugere ao corpo um recolhimento. É preciso adaptar-se ao lugar.

O silêncio se apresenta. Vozes sussurradas de visitantes misturam-se aos cânticos dos festejos reproduzidos nos vídeos de uma das salas. O corpo abranda o passo. O olhar desacelera. A respiração aprofunda a percepção. Aos poucos, o espaço expositivo se torna um limiar — fugidio e denso ao mesmo tempo.

Percorro os cinco núcleos como quem peregrina. Cada um convoca um sentido distinto. As imagens de devoção, as velas ornamentadas, flores e cortinas convivem com anjos arcabuzeiros — guerreiros do céu vestidos como nobres da terra. As cenas de batalha espiritual revelam tensões, disputas simbólicas, processos de doutrinação. O ciclo mariano, da Anunciação à coroação da Rainha do Céu, traça um itinerário que une o visível ao invisível.

Seria arriscado associar essa exposição à tradição iconográfica, para quem encontra ali silêncio, atenção e respeito? A palavra “iconografia” significa escrever por meio de imagens, comunicar-se através delas. Recordo o que Claudio Pastro e Andre Tavares nos alertam: quando priorizamos apenas a palavra, empobrecemos os sentidos. A palavra interpreta; a imagem nos coloca diante de uma presença.

Diante dessas pinturas, não busco interpretar o que se oferece imediatamente aos sentidos. Pauso. E uma história, uma emoção — às vezes até uma oração — surge ali, diante de mim.

A cada passo, ancoro a compreensão dessa exposição como parte de uma concepção mais ampla da arte — arte como criação livre, como conhecimento e como expressão de uma experiência espiritual. Uma arte que nasce de uma força interior que busca forma e, ao encontrá-la, transforma o que se põe a ver. Como afirmam Ceci Baptista Mariani e Heinrich Alexander Otten, quando criação, conhecimento e expressão se encontram, a arte se torna experiência de revelação e caminho de transformação. Não se trata apenas de representar o mundo, mas de recriá-lo — e, nesse processo, recriar também a experiência de ser humano.

Ao escrever esta experiência, descubro com Jose Tolentino de Mendonca que “a contemplação começa quando aceitamos que não sabemos ver, que a nossa visão é parcial e pobre, que vemos sempre ‘como que por espelho e de maneira confusa’” (1Cor 13,12). Em seu diálogo com Simone Weil e Maurice Merleau-Ponty, ele recorda que a atenção não é o retorno a um pensamento que domina o objeto, mas a constituição ativa de um tempo novo, no qual, a cada instante, o objeto é reaprendido.

Contemplar me convida a voltar às coisas mesmas, antes do pensamento. Pergunto-me quantas vezes julgo o instante de hoje com o saber de ontem — e o quanto isso me impede de ver a realidade que se desvela diante de mim.

Céu e Terra dos Andes, apresentada no Instituto Collaço Paulo em parceria com a Universidade de Engenharia e Tecnologia do Peru (UTEC), reúne 40 pinturas do núcleo de arte andina da Coleção Collaço Paulo, além de objetos devocionais, artefatos, registros audiovisuais de festividades andinas e materiais de ateliê. Com curadoria de Andres De Leo e Diana Castillo, a mostra se organiza em cinco salas, nas quais o público encontra símbolos de memória e resistência do século XVIII: o divino e o humano, a luta entre o bem e o mal, as devoções e as flores, as cores da terra — plantas e minerais — e a pintura à luz de uma nova forma de produção artística na América Latina.

A única representação brasileira é a obra de Andre Griffo, que atravessa o tempo e conecta o século XXI à tradição andina com A Supressão do Santo pelo Ornamento (2025). A pintura cria uma ponte inquietante entre os séculos. Com vigor e precisão, o artista discute estruturas de dominação, o poder da religião e as violências inscritas na história. O olhar atento percebe o embaralhamento entre o documental e o ficcional, as ruínas expostas, os efeitos persistentes da economia escravocrata e das imposições simbólicas que moldaram — e ainda moldam — nossos imaginários.

Ao sair da exposição, levo comigo a sensação de ter sido chamada. Chamada ao céu, como elevação do olhar. E chamada de volta à terra, mais atenta, mais sensível, mais disponível ao sagrado que se manifesta no cotidiano. Algo permanece em vigília.

Entre céu e terra, a arte me recorda que todos buscamos, de algum modo, aprender a ser santos — não fora do mundo, mas inteiramente dentro dele.

Por isso, convido você a ir. A caminhar passo a passo esse itinerário. A sustentar com atenção seu olhar entre o céu e a terra. A permitir que o enigma se revele no tempo próprio da contemplação.

Serviço
O quê: exposição “Céu e Terra dos Andes”, curadoria de Andrés De Leo e Diana Castillo
Quando: 3.12.2025 a 11.7.2026, seg. a sáb., 13h às 18h30
Onde: Instituto Collaço Paulo – Centro de Arte e Educação, rua Des. Pedro Silva, 2.568, bairro Coqueiros, Florianópolis (SC), tel.: (48) 3025-4058
Quanto: gratuito

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *