Ponto de Contato

Ponto de Contato

Ponto de Contato: A apologética criando vias de acesso para a fé cristã na cultura contemporânea.

Em suas aulas de apologética o professor Antônio Neto descreve que essa matéria consiste em uma introdução e um estudo da defesa da fé cristã; e seu objetivo é fornecer a nós estudantes a compreensão deste campo de estudo teológico, oferecendo também as ferramentas para uma boa defesa do pensamento cristão. Ao revisar essa disciplina percebo que esse objetivo foi alcançado satisfatoriamente, pois o estilo cuidadoso e sereno do professor Antônio Neto ao explicitar as bases da apologética enfatizando-a como arte da argumentação, facilitou muito minha aprendizagem. Noto que foram muitos os tópicos e temas abordados e para esse breve ensaio, enfocarei na noção de “ponto de contato” que chamou a minha atenção principalmente, quando me deparei com o estudo de algumas referências sugeridas durante a disciplina, dentre elas C.S. Lewis e Alister McGrath. Tendo em mente a pergunta: Como o tema ponto de contato contribui para a criação de vias de acesso para fé cristã no mundo contemporâneo? Busco nesse ensaio, primeiramente, comentar como o estudo da citação bíblica de 1 Pedro 3:15, 16a clarifica para mim o conceito de apologia. Em seguida, mencionar a identificação do ponto de contato em Agostinho associada à definição de pontos de contato por Alister Mcgrath, na conclusão destacar a relevância da identificação dos pontos de contato como vias de acesso à fé cristã na cultura contemporânea.

A citação bíblica de 1 Pedro 3:15, 16a

Antes, reverenciai a Cristo como Senhor no coração. Estai sempre preparados para responder a todo o que vos pedir a razão da esperança que há em vós. Mas fazei isso com mansidão… (AS21)

Essas palavras de Pedro reverberam em mim, quando ele recomenda que eu reverencie ou santifique a Cristo em meu coração, e quando solicita que eu prepare (estude, pense, compreenda) para responder [oferecer uma apologia] a todo o que me pedir a razão [logo] da esperança que há em mim , sendo que essa minha ação deve ser feita com mansidão. Aprecio aqui, particularmente, a indicação do autor Alister Mcgrath, em seu livro Apologética pura e simples, do cristão cultivar um “discipulado da mente”. Escreve Mcgrath: “Antes de responder às perguntas que os outros fazem a respeito da nossa fé, temos de tê-las respondidas para nós mesmos. (…) Ser cristão é refletir sobre a fé, é também elaborar respostas para os nossos questionamentos. Fazer apologética consiste em se aprofundar cada vez mais na fé cristã e assim descobrir suas riquezas. Aprendemos assim apreciar os tesouros e a racionalidade da nossa fé, além de aprendermos também outra coisa igualmente importante: como lidar com as perguntas dos outros“ (pg. 16). Como ele observa, que não são somente as pessoas fora da igreja que indagam sobre a fé, muitos cristãos também sentem dificuldades em relação à fé que professam e estão em busca de explicações que os ajudem preservá-la. No que diz respeito ao tema da mansidão citado de 1 Pedro 3.16a, Alister Mcgrath sugere que o cristão deve lidar com os questionamentos das pessoas acerca da fé de modo sensível e compassivo, sem ser indiferente, mas solidário e afetuoso. Compara que a apologética refere-se tanto à nossa atitude e caráter tanto quanto aos nossos argumentos e às análises que fazemos. “Temos que fazer contato com as pessoas onde elas estão, e não onde presumimos que estejam” (p.29).

Mas, como surge essa noção de ponto de contato e por que ela é tão importante na prática apologética? Vamos atentar em como Agostinho explicita essa noção nessa citação de sua obra Confissões:

“Ó tu, bem onipotente que cuidas de cada um de nós como cuidasses somente dele, e cuidas de todos, como se fossem um apenas! Bem-aventurado o homem que te ama… Vejo que as coisas passam, que outras tomam o seu lugar, mas tu não passas nunca. Ó Deus, meu Pai, bem supremo, beleza de todas as coisas que são belas, em tuas mãos coloco tudo o que de ti recebi, para eu não perca nada. Tu me fizestes para ti mesmo, e inquieto bate o meu coração, até que possa repousar em ti” Essas belas palavras de Agostinho são tão bem articuladas por Alister Mcgrath em seu livro Apologética no século XXI, principalmente quando esse autor vincula essas com a noção de ponto de contato, mencionando a lembrança amorosa de Deus, “arraigada nas doutrinas da criação e da redenção, segundo as quais perdemos parcialmente alguma coisa com o pecado e, de algum modo, tomamos conhecimento dessa perda por meio da graça de Deus” Deste modo, o ponto de contato, é definido como aquela percepção ou a consciência da presença passada de Deus e a atual debilidade dessa presença, suficiente para nos comover a ponto de nos sentirmos desejosos de recobrá-la em sua totalidade, por meio da graça divina (p.24).

Para concluir esse breve ensaio, vale salientar que a apologética cristã eficaz, é aquela que tem como objetivo localizar os pontos onde se dá a separação entre o evangelho e os indivíduos e as comunidades do mundo todo, e que identifica os melhores pontos para a construção de pontes e vias de acesso, para que o contato seja estabelecido. Alister Mcgrath nos estimula a identificar pontos de contato com o evangelho que já estejam incrustados na cultura e na experiência humana, pois Deus não deixou de dar testemunho de si mesmo na história, na cultura ou na experiência humana, assim ele discute quatro portas de acesso à apologética cristã, na cultura contemporânea, a saber, 1. Explicação; 2. Argumento; 3. Histórias e, 4. Imagens. Mas, salienta que há outras portas de acesso possíveis. Cita o apologeta Philip D. Kenneson a dizer: “Aquilo de que o mundo precisa e que a igreja parece relutante em oferecer não é um falatório incessante sobre a verdade objetiva, e sim um testemunho encarnado que demonstre claramente por que, afinal de contas, o mundo deveria prestar atenção em nós”. Acrescenta que “a vida cristã é um testemunho importante da capacidade que o evangelho tem de mudar vidas. Como testemunhas de nossa própria história, estamos testemunhando indiretamente que o evangelho é real, e não só que ele é verdadeiro” ( 2012 : 158). Por fim, com a nossa vida estamos criando pontes de acesso a fé cristã na cultura contemporânea, confiantes que o Espírito Santo completará a sua obra.