Vamos Meditar – Abril

Vamos Meditar – Abril

Sábado da Quinta Semana da Quaresma
Leitura de Sábado, 13 Abril 2019
D. Laurence Freeman

João 11, 45-56

Não percebeis que é melhor um só homem morrer pelo povo do que perecer a nação inteira?

Quando criança, fui educado na riqueza da fé católica. Seu simbolismo poderoso abriu novas dimensões da realidade para mim. Tinha uma imagem de Deus tão madura quanto era possível naquela idade. Cada vez mais, porém, eu me relacionava com aquele ser distante, eterno observador do alto, supostamente amoroso mas também assustadoramente frio, uma construção de nosso imaginário coletivo, mais ou menos como o ladrão de banco se relaciona com a câmera de segurança.

“Quando eu era criança, eu falava como criança, compreendia como criança, pensava como criança: mas quando me tornei um homem, deixei de lado as coisas de criança.” São Paulo insiste que devemos amadurecer nossa religiosidade e entrar na realidade, não mais na construção, mas da dimensão divina. Estas palavras do Evangelho de hoje são do Sumo Sacerdote, que, com a crueldade sempre presente nos corredores do poder, nos dá uma chave para a maturação de nosso entendimento da história da Páscoa. Esta nova versão em breve vai acelerar aqueles dentre nós que estão acompanhando a liturgia.

Quando criança, recebi uma explicação simples, na verdade, simplificada demais, desta história que estilhaça o mito. Redenção do pecado. O sofrimento e a morte de Jesus, o sacrifício do cordeiro inocente, era explicado como o pagamento de uma dívida da humanidade para com um divino e amoroso Criador. Se você perguntasse qual era a dívida, contavam-lhe a história do jardim do Éden e o fatal pedaço de fruta que trouxe morte e miséria à condição humana. Nesta configuração, era uma inversão da história do Papai Noel, que lhe dá alguma coisa em troca de nada. Enquanto Deus que é Pai pune as pessoas por coisas que elas não fizeram e que chama de pecado original. Como uma dívida no cartão de crédito que você não consegue pagar, a culpa vai crescendo, ficando cada vez maior.

A partir de uma certa idade e um certo nível de reflexão, isto se torna um insulto à inteligência da maioria das pessoas. Elas procuram uma explicação melhor ou partem em busca da verdade numa outra direção totalmente diferente. O comentário do Sumo Sacerdote ajuda. Expõe uma dinâmica universal em toda a sociedade humana e em todos os relacionamentos públicos. O pensador francês René Girard a reconhece como um mecanismo de bode expiatório, em que, num momento crítico, um grupo em conflito acusa de culpado por seus infortúnio uma vítima inocente – que é sacrificada, trazendo uma paz temporária e, em geral, é depois divinizada. Ainda fazemos isso com judeus, homossexuais, imigrantes, enfim, qualquer um que seja o “outro” para a maioria.

A Paixão de Cristo reflete esta dinâmica universal, mas unicamente da perspectiva da vítima. A máscara é exposta – embora, por ser um mecanismo tão útil, continuemos a usá-lo, escolhendo não ter consciência do que estamos fazendo. A Quaresma e a meditação podem mudar esta escolha e tornar-nos conscientes de nossos atos e de qual é nossa verdadeira relação com o Pai. O problema não é com a natureza divina, mas com a psique humana. Como fazer as pessoas crescerem e assumirem responsabilidades por si mesmas? Tratando-as como adultas. A história da Páscoa é para gente grande.

No contexto da multidão, porém, seres humanos agem como animais ou crianças pequenas. Seguimos os fortes e maltratamos os fracos, caso nos pareça que esta é a coisa mais segura para nós. A história que em breve será recontada revela a imensa solidão da alternativa à multidão. Mostra como a experiência pessoal e o mito se fundem. Rejeição, sofrimento, morte e túmulo são provações. Encaremos este fato. Mas não é a história inteira, nem, tampouco, felizmente, o fim da história.

Texto original em inglês

Saturday Lent Week Five: John 11: 45-56

You fail to see that it is better for one man to die for the people, than for the whole nation to be destroyed.

As a young boy I was brought up in the richness of Catholic faith. Its powerful symbolism opened new dimensions of reality for me. I had as mature an image of God as I could at that age. Increasingly, though, I related to this distant, elevated ever-observing, supposedly loving and yet terrifyingly cold construct of our collective imagination a bit like a bank robber would to a surveillance camera.

“When I was a child, I spoke as a child, I understood as a child, I thought as a child: but when I became a man, I put away childish things.” St Paul insists that we have to grow up religiously and break through into the reality, not the construct, of the divine dimension. These words from today’s gospel come from the High Priest who, with a political ruthlessness ever present in the corridors of power, gives us a key to this maturation of our understanding about the Easter story. This re-telling is soon to go into high gear for those of us following the liturgies.

As a child I was given a simple, in fact a greatly over-simplifying, explanation of this myth-shattering story. Debt-redemption. The suffering and death of Jesus, the innocent lamb-sacrifice, was explained as the paying off a debt that humanity owed to a good and loving Creator. If you asked what the debt was, you were told the story of Eden and the fatal piece of fruit that brought death and misery into the human condition. In that form it was an inversion of the Santa Claus story. Father Christmas gives you something for nothing. God the Father punishes people for things they didn’t do and calls it original sin. Like a credit card debt you can’t pay off, the guilt just kept getting bigger and bigger.

After a certain age and level of reflection this becomes an insult to most people’s intelligence. They look for a better explanation or they go off looking for the truth in another direction altogether. The High Priest’s comment helps. It exposes a universal dynamic in every human society and all communal relationships. Rene Girard, the French thinker, recognised it as a scapegoat mechanism whereby in a time of crisis a group in conflict blames its woes on an innocent victim – who is sacrificed, brings a temporary peace and is often later divinised. We still do it with Jews, gays, immigrants, anyone who is ‘other’ to the majority.

The Passion of the Christ reflects this universal dynamic, but does so uniquely from the victim’s perspective. The mask is exposed – although, because it is such a useful mechanism, we continue to use it, choosing to be unconscious of what we are doing. Lent and meditation are able to change this choice and make us conscious of what we are doing and what our true relationship with the Father is. The problem is not with the divine nature but with the human psyche. How can you help people to grow up and take responsibility for themselves? By treating them as adults. The Easter story is for grown-ups.

Inside the crowd mentality, however, humans act like animals or young children. We go with the strong and trample the weak if that seems the safest thing for us to do. The story we will soon be re-telling reveals the huge solitariness of the alternative to the crowd. It shows how personal experience and myth merge. Rejection, suffering, death and the tomb are solitary ordeals. Let’s face it. But it is not the whole story, nor, happily, is it the end of the story.

Por que ficamos paralisadas?

Por que ficamos paralisadas?

Fotos: Ida Mara Freire – Lagartas em árvores Igatu – Chapada da Diamantina  Ba

Lagartas e Borboletas: Por que ficamos paralisadas?

Ida Mara Freire

 

Anos atrás quando preparava aula sobre a Páscoa para as crianças do Maternal, me deparei com uma apostila mimeografada (você se lembra do cheiro do álcool?), a cópia se intitulava “Páscoa: tempo de transformação” e ali estava ilustrado uma lagarta, um casulo e uma borboleta; associada com a vida, a morte e a ressurreição. Desde então as lagartas recebem minha atenção e as borboletas se apresentam para mim como uma epifania.

Contam-que num certo dia a centopeia vinha em seu caminhar a deslizar–se pelas folhas e talos com tal graciosidade, e seus minúsculos pés se deslocavam com rapidez e agilidade, numa sinuosidade de deixar qualquer serpente admirada. Alias, eram muitos seus admiradores, todos adoravam vê-la a dançar. Todos não. Havia, a tartaruga, criatura lenta, um tanto pesada, e por viver na terra e no mar, vivia a carregar a sua casa, e a se esconder sempre que possível ou quando necessário. Ainda que tais características no reino animal tinham suas vantagens, a tartaruga tinha muita dificuldade de aceitar a si mesma, e sempre que atentava para a desenvoltura do caminhar da centopeia ela começava a inquietar-se e duvidar de si mesma. Foi quando ela notou que a centopeia estava por passar por ali e então se pôs no meio do caminho, de modo a ser notada e perguntou: Olá ligeirinha, onde vais sempre com tanta pressa? Gostaria de saber qual é o segredo de sua andança tão leve, tão ritmada. Me explica já que tens tantos pés, quando vais para a direita qual pé movimenta primeiro? O 44 da direita o 79 da esquerda. Na descida o que faz para não despencar de uma só vez? Mostra-me como tu faz? A pequena centopeia ficou paralisada diante da interpelação, pois ao nascer já com tantos pés, não tinha até o momento parado para pensar em como fazia para se movimentar,   o fato é que seu andar parecia lhe bastar e agradar. Mas, ao se ver pelo olhar do outro, não se reconheceu e se encolheu e nunca mais se moveu como antes.”

A fábula livremente alterada do livro “O mundo de Sofia” de Jostein Gaardner (1995) me faz lembrar dos momentos em minha vida que fiquei paralisada. Recordo-me do período em que estava envolvida em vários projetos ao mesmo tempo: frequentava as aulas de doutorado na USP, era assessora da Secretária da Educação de Piracicaba, ministrava aulas no curso de Pedagogia na UNIMEP, e aos domingos cantava no Coral da Igreja Metodista. Certo dia, no fusca amarelo, indo de carona para estação do Metrô na Paulista, com colegas que tinham rotinas semelhantes as minhas, o cansaço não favoreceu meus reflexos visuais distinguir que o trânsito estava parado na Av. Rebouças, e em câmera lenta percebi o carro indo na direção da traseira do outro e… o baque! Bati a cabeça no vidro do carro, somado com o peso do corpo da minha amiga que estava sentada atrás de mim, na época não era obrigatório o cinto e até onde me lembro, o fusquinha não tinha esse aparato em bom estado. O resultado do impacto foram algumas horas de amnésia. Um fato curioso foi na tentativa da minha colega tentar recordar-me quem eu era, dizendo: Você é a Ida, a Ida Mara, você faz doutorado em psicologia na USP. Eu respondi rindo; “Nossa isso pode ser preocupante, se sou aluna de doutorado em psicologia como vou fazer valer esse título se eu não me lembrar do que conheço?”

Mas, a consciência maior veio quando, já sendo cuidada na casa de meu irmão, em São José dos Campos, meu pai chega, e ao me ver deitada no sofá da sala, diz: “A ordem das coisas é eu ir primeiro, não se atreva em mudar isso…” Naquele instante eu indaguei a mim mesma: “Que estilo de vida eu estou vivendo para manter essa ordem das coisas?

Percebi que meu corpo estava me ensinando algumas lições:

  1. Esteja atenta. Não durma no trânsito, mesmo quando você é o carona. É bom manter o motorista acordado.
  2. Mantenha o senso de humor. Mesmo quando a coisa pareça séria, o riso alivia a tensão, e favorece a criatividade.
  3. Seja consciente da ordem das coisas. Nascemos, vivemos, morremos, para quem crê na eternidade – ressuscitaremos.

Borboletas…

Como escreve Saint-Exubéry no Pequeno Princípe: “É preciso que eu suporte duas ou três lagartas, se quiser conhecer as borboletas…”DSC05683

E você, conta para mim em que momentos você se sentiu paralisada como uma lagarta, mas algo dentro de você te chamou para dançar a vida como uma borboleta…

 

 

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