Dimensões da Continuidade

Dimensões da Continuidade

“Dance, dance, senão estaremos perdidos” recomenda Pina Bausch e o Múltipla Dança Festival Internacional de Dança Contemporânea, ocorrido de 20 a 27 de maio, em vários locais de Florianópolis, coordenado por Marta Cesar e Jussara Xavier, patrocinado pela Caixa Federal e, em parceira com Fundação Badesc, Sesc, Ufsc, Udesc, Dança em Foco, Cena 11 Cia. de Dança, artistas e grupos catarinenses.

O olhar. “Eu não investigo como as pessoas se movem, mas o que as move”,   sigo a mencionar entre aspas Pina Bausch. O que nos move? Penso, na ensolarada tarde de segunda-feira 22 de maio, durante a exposição de Cristiano Prim, intitulada “O Fotógrafo também dança”, produzida por Gisele Martins, no 2o. piso do Shopping Floripa. E enquanto a jornalista Néri Pedroso entrevista primorosamente o fotógrafo, que a mais de 20 anos retrata o movimento poético, histórico, político, tecnológico evidenciado na dança em Santa Catarina, o profundo conhecimento, que Prim cultiva acerca da relação da dança com a fotografia, é revelado para todos àqueles que vislumbram suas imagens.

As direções. Nas manhãs de 23 e 24, na Kirinus Escola de Dança, Marilia Velloso, demonstrou como alguns fatores inibem o corpo de se lançar tridimensionalmente no espaço, de explorar outros pontos de vista e de percepção em movimentos de dança. Os trinta participantes da oficina experimentaram como própria frontalidade usualmente utilizada nas concepções coreográficas constitui-se como um desses inibidores espaciais. Pois na “dança deve ter outra razão além de simples técnica e perícia. A técnica é importante, mas é só o fundamento. Certas coisas se podem dizer com palavras, e outras, com movimentos.”

O Corpo. “Calma, eu quero entender…” responde a jovem para seu acompanhante enquanto cruzavam o calçadão da Felipe Schimitt e a Deodoro, enquanto acontecia por 50 minutos a “Rinha” uma performance do “Entropia – Experiências Artísticas”, com a direção de Luana Leite. O Grupo traz para o espaço urbanos a perspectiva da disputa que tem condicionado cada vez mais as relações humanas. Rinha é uma proposição cênica sobre os confrontos cotidianos. Através de violentas rachaduras na realidade dormente da rua, a atmosfera do embate é instaurada tanto pelos performers Camila Raquel, Laura Manuella, Lucas Viapiana, Marina Argenta e Thaina Gasparotto, quanto no espaço que se cria nas relações com os transeuntes. “Há instantes, porém, em que perdemos totalmente a fala, em que ficamos totalmente pasmos e perplexos, sem saber para onde ir. É aí que tem início a dança, e por razões inteiramente outras, não por razões de vaidade. Não para mostrar que os dançarinos são capazes de algo de que o espectador não é.”

A fala. O Corpo falante de Anderson do Carmo em seu Ensaio sobre a Retórica indaga, faz alguns rirem para fora, enquanto choram por dentro. Desdobramentos de sua residência realizada no Memorial Meyer Filho em 2016, o dançarino apresentou na noite de 25 de maio, na Fundação Badesc, uma coleção de gestos, um inventário de sons, uma lista de imagens que pretende encontrar, alargar e habitar o espaço quase invisível que existe entre as palavras e as coisas.  “É preciso encontrar uma linguagem com palavras, com imagens, movimentos, estados de ânimo, que faça pressentir algo que está sempre presente. Esse é um saber bastante preciso. Nossos sentimentos todos eles, são muito precisos, mas é um processo muito, muito difícil torná-los visíveis. Sempre tenho a sensação de que é algo com que deve lidar com muito cuidado. Se eles forem nomeados muito rápido com palavras, desaparecem ou se tornam banais.”

O gesto e o som. Na chuvosa noite de 27 de maio, por volta das 20h, no Teatro Sesc Prainha, a dançarina Key Sawao, acompanhada com a sonoridade singular de Hedra Rockenbach, dança sua “Experiência 4” espetáculo que mistura as camadas de tempos-espaços-pensamentos-gestos- sons de onde emergem movimentos que encarnam as palavras de Kazuo Ohno: “Quando se dança, é preciso suportar as pressões ao máximo no início; depois, envolve-se o movimento com toda essa energia acumulada – por fim, é possível elevar-se, na água da dança, como o linguado acima da areia.”

O lugar. É com imagens de água e areia que se encerra Festival Múltipla Dança 2017. O Coral da Ponta vídeoarte realizado por Alan Langdon a partir da composição urbana Dança Coral, concebida por Diana Gilardenghi, Milene Duenha, Paloma Bianchi e Sandra Meyer para o projeto Corpo, Tempo e Movimento, amplifica e potencializa as imagens capturadas pela câmera, transformando-as em uma experiência estético-emocional para que as observa.

A Dança. Nessa semana, o leitor e a leitora, apreciadores do Múltipla Dança, atentaram que movimento é vida. Empresto as palavras de Kazuo Ohno que nos lembra que nós temos de dançar como na vida. Em nossas vidas, há sempre algo começando e algo terminando, há sempre movimento. Não existe sofrimento permanente ou felicidade eterna – esse deve ser o mote a impulsionar as nossas danças. Quem nos vê dançar deve ter a sensação de experimentar essa pulsação, de assistir ao ‘filme de nossas vidas’. A vida e a morte se alternam, completam-se. A consciência desse movimento deve monitorar o ritmo de nossa dança, da nossa esperança e, também, da nossa continuidade…

Texto Publicado no Jornal Notícias do Dia, Caderno Plural, Edição Online, 29/05/2017.

Surpreendidos pela alegria

Surpreendidos pela alegria

Por Ida Mara Freire Foto de Cristiano Prim

O tempo nublado na tarde de domingo 21 de maio, não impediu que as crianças,  acompanhadas de  seus  familiares fossem ao Teatro Álvaro de Carvalho  para assistirem o espetáculo infantil “Para todos os seguintes”, dirigido  por Key Sawao e Ricardo Iazzetta, contemplado pelo Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna.  A peça criada para crianças,  faz parte da programação do Múltipla Dança Festival Internacional de Dança Contemporânea, e traz em si uma tonalidade intensiva de corpo, movimento, gesto, som, cor e luz, numa tal medida e modo, que tanto os pequenos como os adultos que as acompanham, acabam por serem surpreendidos pela alegria,  uma força ativa e de um devir infantil que envolve a todos os presentes.

Os acordes refinados da guitarra  de Ramiro Murillo  chegam em passos lentos.  Seguido pelos olhares atentos da plateia o músico se coloca no palco,  preparando a cena para o brincar. Carolina Minozzi, Key Sawao, Mauricio Flórez e Ricardo Iazzetta dançam, por 35 minutos,  ao frescor da  musica composta ao vivo, exibem no corpo  a   própria potência de mover, manifestam assim  o aspecto atemporal do viver alegremente. As  trajetórias traçadas por cada um, no espaço cênico artisticamente realizado por Hideki Matsuka,  levam aos encontros insólitos no espaço predominado pela cor vermelha  e intensificado pela percepção de si e do outro. O inesperado emerge da dança repleta de ritmos, das nuances dos papeis brilhantes e estouros coloridos,  do despertar da curiosidade  pela bola que se move  sozinha no palco ou da  enxurrada de bolinhas saltitantes, que enlouquece a garotada.  O jogo cênico de movimento que brinca com as possibilidades da mágica, para além de aposta na ilusão, investe-se  na alegria em provocar efeitos ilusionistas criados ora com objetos ora com o  próprio corpo e seus modos de  se mover.

A possibilidade do espetáculo “Para todos os seguintes” se abre para os diretores e dançarinos  Key Sawao e Ricardo Iazzetta, como fruto de uma pesquisa continuada tomada pelo afeto,  que procura criar uma ambiência   para as intensidades emergirem.  Como  na versão inicial do espetáculo apresentada para o público adulto, que  tinha como  sinopse:  “cinco pessoas dançam intensamente e desaparecem à olhos nus”. Ricardo Iazzetta descreve: “… anunciava um desaparecimento, que era a última coisa que acontecia, obviamente de um modo tosco, mas criando uma ilusão de desaparecimento.  E aí,  quando reacendia a luz  e gente não estava mais lá.  Para mim, do meu ponto de vista, restava um silêncio intenso, como se tudo aquilo que tivesse acontecido, reverberasse criando em quem vê movimentos da memória. Essas intensidades,  esses movimentos que acontecem nesse plano, é um pouco dos alicerces e sentidos  da dramaturgia que a gente pesquisa também.”

Deste modo, o Múltipla Dança 2017 surpreende,  a leitora e o leitor apreciadores  da dança contemporânea,  com sua programação que celebra a diferença e  sustenta a continuidade de uma dança fundada  na primeira atividade da alegria – o ato substancial que confere à consciência plenitude e significação.  A leitura do “Ensaio sobre a alegria” de Robert Misrahi,  inspira  mover-se por uma dança que inaugura  no corpo o ato de fundar valores e de conduzir o ser que dança à certeza de sua validade e à possibilidade de sua realização. Dançar é uma alegria, porque estabelecer a vida sobre as bases sólidas da corporeidade e da singularidade  é uma alegria. Deste modo, a dança confere portanto ao dançarino, por sua própria atividade de respiração e flexão, a alegria, que emerge de uma compreensão e de um conhecimento que nos dão o domínio sobre a nossa vida.  A alegria  de dançar sua vida pela compreensão de si e pelo conhecimento que se tem do mundo, pode ser conferida no livro que Marta Cesar  e  Jussara Xavier, diretoras do Múltipla Dança estão organizando, com textos inéditos de críticos, teóricos e artistas convidados, dentre eles, profissionais que participaram de alguma edição do festival, com  temas importantes como história, crítica, criação, pesquisa, inclusão e gestão da dança. Uma edição comemorativa aos 10 anos do Múltipla Dança. Os textos estão prontos e  as organizadoras pretendem  finalizá-lo e lançá-lo em breve.  E mais uma vez seremos surpreendidos com a alegria da dança que se quer dançar.

Texto Publicado na Jornal Notícias do Dia. Revista Caderno Plural em 27/05/2017.