3# Segredos para você ser percebida enquanto fala

3# Segredos para você ser percebida enquanto fala

IdaMaraFreire – Foto Acic

Quando você está falando as pessoas estão prestando atenção em você?  Se  você não enxerga como saber isso? Na Conversa Dançada ocorrida na ACIC – Associação Catarinense de Integração do Cego, no final do mês de agosto, as pessoas participantes comentaram sua experiência de algumas vezes as pessoas sairem da sala sem avisarem e elas continuam falando,  literalmente, para as paredes.  Como isso  pode ser evitado?

Muitas vezes isso pode acontecer, primeiro, por esquecimento do interlocutor, ele não se lembra que a pessoa que ele está falando não está vendo que ele está a sair do local.  Outras vezes, podemos manter uma conversa, apenas para  mostrar ao outro que estamos presentes, se estamos no silêncio, em um lugar movimentado como saberemos se o outro, que não vê, vai perceber nossa presença?

No contato com pessoas com cegueira uma das questões apresentadas é acerca de como a pessoa que não vê é vista pelo outro.  As pessoas com cegueira, com baixa visão, ou  não visual, esses são os termos  que uso, pois, como tenho estudado, não se trata só de neologismo, a cegueira é uma experiência perceptiva do mundo, muito além daquilo que expressa o termo “deficiência  visual”,  usado comumente para identificar e categorizar esse grupo social.

Com o intuito de facilitar a comunicação entre as pessoas com e sem cegueira, proponho a Conversa Dançada   #3 segredos para você ser percebido enquanto  você fala.

Vamos explorar como nosso corpo pode nos ajudar  a estarmos presentes em nossas conversas e perceber o fluxo de diálogo com as pessoa que estamos a conversar.

#1  Lembrar-se de um episódio

Para estabelecer  uma conversa que desperte interesse da pessoa presente,  busque em seu corpo experiências que você consiga lembrar por inteiro, ou seja, com começo, meio e fim. Isso é, acesse sua memória episódica.

Por exemplo, Márcio relata: “No domingo ensolarado,  fiz um passeio  maravilhoso na praia.”

# 2 Usar palavras fortes.

Diga palavras que fazem sentido para você. Com isso estamos acessando nossa memória semântica.

#3 Perceber a emoção.

Reconhecer um sentimento  é aplicar um juízo em uma emoção. Desse modo acessamos a estética das emoções.

 

Em nossa Conversa Dançada, ouvimos a música “De volta ao Começo” cantada por Nana Caymmi; para acessarmos nossa memória episódica.

Identificamos  as palavras fortes:

“Saúde, Alegria, Sol,  Paz, Música, Passeio, Compromisso, Amor,  Agradecer, Amizade, Reflexão, Olhar”

Destacamos o movimento da voz ao  pronuncia-las;

Dançamos buscando aplicar ou identificar nos movimentos  a estética das emoções.

Ao terminar nossa Conversa Dançada –  apreendemos  em nossa experiência que “estar de corpo inteiro presente numa conversa exige uma escuta atenta de si, muita tranquilidade ao falar,  paz consigo mesmo e com os outros e isso faz  transparecer a segurança.”

E você quando está numa conversa quais são seus segredos para perceber o outro e ser percebida por ele atentamente?

 

 

Temperos da Escrita

Temperos da Escrita

Exercício Contemplativo 8

Memória: o tempero da escrita
Por Ida Mara Freire

“Um dia de inverno, ao voltar para casa, vendo minha mãe que eu tinha frio, ofereceu-me chá, coisa que era contra os meus hábitos. A princípio recusei, mas, não sei por que, terminei aceitando. Ela mandou buscar um desses bolinhos pequenos e cheios chamados madeleines (…) No mesmo instante em que aquele gole, envolto com as migalhas do bolo, tocou o meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem noção da sua causa. Esse prazer logo me tornara indiferente as vicissitudes da vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, tal como o faz o amor, enchendo-me de uma preciosa essência: ou antes, essa essência não estava em mim; era eu mesmo.”

Aqui estou descobrindo as memórias sensoriais de Marcel Proust em suas descrições dos bolinhos, chamados de madeleines, na sua obra “Em busca do tempo perdido.” E pergunto quem não se lembra do aroma de canela salpicada no bolinho de chuva? A atmosfera da casa fechada, transmitia proteção e acolhimento, o chiado do mergulho da massa na panela com óleo quente, a curiosidade infantil diante daquela mutação deliciosa contrastava com a preocupação materna ao alertar para não ficar próximo do fogão. Quais são suas memórias despertadas pelo seu paladar? Como elas podem temperar a sua escrita?

Para ler: Em busca do tempo perdido v.1 Marcel Proust – Tradução Mario Quintana

Para saborear com os olhos fechados: prepare um delicioso chá e experimente fazer as madeleines ou outro bolinho, biscoito que você gosta.

Para escrever: Descreva sua experiência gustativa usando a descrição de Marcel Proust das madeleines, como modelo. Empreste memórias de outros sentidos para expandir os detalhes, lembre-se de descrever o cenário onde o alimento é degustado e aspectos do ambiente que contribuem para o seu deleite.

Conversa Dançada  no evento “traduzIr”

Conversa Dançada no evento “traduzIr”

Quarta-feira as 10hs
Local: Básico –
Evento: TraduzIr –
Promovido por: Estudantes do Curso de Pós-Graduação em Tradução da UFSC
Informações: http://jornadatraduzir.wix.com/2016

Conversa Dançada:
Tecelãs da Existência: um ensaio acerca da liberdade
Por Ida Mara Freire
Sinopse
Nesse ensaio entrelaço fios de vidas das mulheres negras que estão atadas ao fio da minha vida. Com os fios soltos das canções de Zezé Motta e dos escritos da filósofa Hannah Arendt teço este texto-existência. Na leitura dos ensaios e poemas de Marlene NourbeSe Philip, escritora afro-caribenha, me inspiro não só para resistir as amarras culturais hegemônicas, mas também transcendê-las, criando possibilidades de escrita que vincule a dinâmica da fala com a dinâmica da ação, compor um texto que se movimenta ora como dança através do espaço ora como uma canção, ritmada pelo tempo. Pois, criar e dançar uma coreografia é uma forma de fazer história. Como investiga Selma Treviños trata-se de uma ferramenta para animar o passado ou uma “escrita” acerca de algo que já foi feito, se concordamos que cada corpo carrega sua própria história, individualidade, memória, sentimentos e emoções. Na busca do entendimento desta minha breve existência danço, escrevo, teço palavras com fios desfiados da flor do útero das minhas ancestrais. Vasculho minhas lembranças e na memória corporal decifro a dor, encontro a raiz da violência, observo o medo, destilo a alegria, enfeito a doçura, mergulho na paz e conheço a liberdade.
Fotografia: Marina Moros
Criação: Ida Mara Freire
Orientação Coreográfica: Diana Gilardenghi
Orientação Musical: Alberto Heller
Texto Escrito: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/36545