Contemplar ou Mergulhar

Contemplar ou Mergulhar

Foto: Ida Mara Freire

Escrita: uma conversa dançada com o leitor

Por Ida Mara Freire

“Em virtude desse olhar as feições se fizeram rosto e, mais tarde, máscara, significação, história.” Estou aqui no Labirinto da Solidão de Octavio Paz atenta ao seu exercício de imaginação crítica dos mexicanos, homens e mulheres:

“O adolescente se assombra com o ser. E ao pasmo segue-se a reflexão: inclinado para o rio de sua consciência pergunta-se se este rosto que aflora lentamente das profundezas, deformado pela água, é o seu. A singularidade de ser – mera sensação na criança – transforma-se em problema e pergunta, em consciência inquisidora. Aos povos em transe de crescimento ocorre alguma coisa parecida. Seu ser se manifesta como interrogação: o que somos e como realizaremos isto que somos? […] Despertar para a história significa adquirir consciência da nossa singularidade, momento de repouso reflexivo antes de nos entregarmos ao fazer. […] A preocupação com o sentido das singularidades do meu país, que partilho com muitos, parecia-me há tempos supérflua e perigosa. Em vez de perguntarmo-nos a nós mesmos, não seria melhor criar, trabalhar sobre a realidade que não se entrega àquele que a contempla, mas sim àquele que é capaz de nela mergulhar? O que pode nos diferenciar do resto dos povos não é a sempre duvidosa originalidade de nosso caráter – fruto, talvez, das circunstâncias sempre mutantes –, mas sim a de nossas criações.”

Sexta-feira, após caminhar na praia, volto para casa e começo a escrever o exercício contemplativo 11. Mas, ao preparar o material fui me envolvendo numa teia de pensamentos que estou ainda suspensa, principalmente,  acerca dos temas que escrevo e, como tal escrita inspira vocês:  leitor e leitora,  a contemplarem e a  mergulharem na realidade para  criarem algo novo.  Embora, é sugerido manter uma periodicidade nas publicações, busco também,  não só produzir conteúdo, mas, além disso, estabelecer uma conversa dançada com vocês.  E uma conversa envolve tempo, silêncio, pausa da ação. Então,  ouvindo vocês e dançando com as palavras, surge o ritmo da realidade contemplada e mergulhada, e assim acontecerá a história aqui narrada.

Hannah Arendt o conceito de história: moderno e cristão

Hannah Arendt o conceito de história: moderno e cristão

Ao estudar o tema Teologia do Novo Testamento um dos tópicos explorado pelo professor Rômulo Monteiro que considero relevante aprofundar nesse comentário é o conceito de história. Para isso, primeiramente apresentarei a definição de teologia bíblica do autor George Eldon Ladd e sua relação com o conceito de história. Problematizando a implicação da fidelidade da história bíblica exploro como modelo de método de análise conceitual a reflexão da filósofa Hannah Arendt acerca dos conceitos históricos moderno e cristão, com o intuito de atentar para as reverberações da noção de secularização na compreensão da teologia bíblica.

No parágrafo introdutório do capítulo “Teologia Bíblica, Revelação e História” o autor George Eldon Ladd (1911-1982) escreve que: “a teologia bíblica é a disciplina que estrutura a mensagem dos livros da Bíblia em seu ambiente formativo histórico. A teologia bíblica é basicamente uma disciplina descritiva, não busca primeiramente o significado final dos ensinos da Bíblia, ou a sua relevância para os dias atuais, uma tarefa da teologia sistemática. A tarefa da teologia bíblica é expor a teologia encontrada na Bíblia em seu contexto histórico, com seus principais termos, categorias e formas de pensamento” (LADD, 2003:38). Para esse autor o propósito da Bíblia é contar a história a respeito de Deus e seus atos na história para a salvação da humanidade. Nos parágrafos seguintes Ladd esclarece que a teologia bíblica não é nem a história da busca humana com relação a Deus, nem tampouco uma descrição de uma história da experiência religiosa. Mas, a teologia bíblica é antes de tudo uma história a respeito de Deus e de seus interesses e do seu cuidado para com os seres humanos. Deste modo, ela existe em razão da iniciativa divina realizada em uma série de atos divinos tendo como objetivo a redenção humana. Vale assim salientar que a teologia bíblica, consequentemente, não é um sistema de verdades teológicas abstratas, mas ocupa-se da descrição e da interpretação da atividade divina no contexto do cenário da história humana, cujo objetivo é a redenção do homem.

Um dos problemas identificados acerca dessa definição, apresentado por Ladd, está a fidelidade da história bíblica, o autor comenta: “O problema reside no fato de que as pressuposições sobre a natureza da história são continuamente inseridas na reconstrução da mensagem bíblica. Por exemplo, os Evangelhos apresentam Jesus como um homem divino, e ao mesmo tempo como consciente de seu poder divino. Será que esse fato pode ser considerado verdadeiro pela história? Os estudiosos adeptos de um método histórico, cujas pressuposições são secularistas, não tem lugar para homens divinos. Por conseguinte, atrás do relato da pessoa de Jesus nos Evangelhos deve ocultar-se um Jesus histórico. O Novo Testamento descreve que a igreja foi fundada pela ressurreição de Cristo. Será que Jesus realmente ressuscitou dos mortos? Na experiência histórica comum, os mortos não ressuscitam. Tais pressuposições, logicamente, afetam a metodologia dos teólogos bíblicos.” (LADD,2003:38)

Um exemplo que explicita o estudo acerca da natureza da história que pode trazer contribuições metodológicas para nós estudiosos da teologia bíblica está no ensaio da filósofa Hannah Arendt (1906-1975) intitulado “O Conceito de História – Antigo e Moderno”, no qual ela desfolha as diversas camadas das ideias que compõe o conceito de história. Aqui vou priorizar explorar a tese de que a moderna consciência histórica possui uma origem religiosa cristã vindo a existir através de uma secularização de categorias originalmente teológicas. Hannah Arendt ao discutir que a ênfase moderna no tempo e na sequência temporal, diz que se tem sustentado que a origem da nossa consciência histórica se acha na tradição hebraico-cristã, com seu conceito de tempo retilinear e sua ideia de uma providência divina que dá à totalidade do tempo histórico do homem a unidade de um plano de salvação. Afirma-se que apenas nossa tradição religiosa conhece um início e, na versão cristã, um fim do mundo; se a vida humana sobre a terra segue um plano divino de salvação, nesse caso sua continuidade deve abrigar uma importância independente e transcendente de todas as ocorrências isoladas. Esse raciocínio apoia-se em Agostinho, cuja noção de história, como o que possui significado e faz sentido, pode ser separada dos eventos históricos isolados relatados em narrativa cronológica. Mas, para Arendt essa similaridade entre os conceitos moderno e cristão de História é enganosa. Pois, Agostinho ao refutar as especulações pagãs acerca do tempo, preocupara-se basicamente com as teorias cíclicas de sua própria era, as quais com efeito nenhum cristão podia aceitar, em virtude da unidade absoluta da vida e morte de Cristo sobre a terra: “Cristo morreu uma vez por nossos pecados e ressurgiu dos mortos para não mais morrer”. Hannah Arendt examina: “o que os intérpretes modernos tendem a esquecer é que Agostinho reclamava essa singularidade que soa tão familiar a nossos ouvidos, somente para este evento – o evento supremo na história humana, quando a eternidade como que se quebrou no decurso da mortalidade terrena; ele jamais pretendeu essa unicidade, como o fazemos, para eventos seculares ordinários” (Arendt, 2000:97).

Para Hannah Arendt a atitude de Agostinho diante à história secular é que essa se repete, e a única história na qual os eventos únicos e irrepetíveis têm lugar se inicia com Adão e termina com o nascimento e a morte de Cristo. Por outro lado, do ponto de vista moderno, a história assenta-se sobre o pressuposto de que o processo, e sua secularidade mesma, nos conta uma estória com direito próprio e de que, estritamente falando, repetições não podem acontecer. A pesquisa histórica sobre o período de transição entre a Idade Média e os Tempos Modernos elucidou que se por “secularização” se entende como o surgimento do secular e o concomitante eclipse de um mundo transcendente; então é inegável que a moderna consciência histórica está vinculada com isso, o que não implica transformar as categorias religiosas e transcendentais em alvos e normas terrenas imanentes, que alguns historiadores insistem em associar. Arendt nota que a secularização significa simplesmente a separação de religião e política, e isso afetou ambos os lados de maneira fundamental. Para ela o fato é que separação entre Igreja e Estado ocorreu, eliminando a religião da vida pública, removendo todas as sanções religiosas da política. Arendt analisa que essa espécie de reserva na religião aparece quando um regime tirânico proíbe o livre funcionamento das igrejas, negando ao crente o espaço público em que ele pode aparecer com outros e ser visto por eles. Por conseguinte, o domínio público-secular, ou a esfera política compreende a esfera público-religiosa e tem lugar para ela. Um fiel pode ser um membro de uma igreja e ao mesmo tempo agir como um cidadão na sociedade em que vive.

Para concluir esse comentário acerca do conceito de história na teologia bíblica enfatizo, em acordo com Arendt, que a consequência mais importante do surgimento do domínio secular na época moderna foi ter a crença na imortalidade individual perdido sua força coercitiva. A secularização da época moderna aponta para uma luta pela imortalidade que significa a adição, à obra humana, de algo mais permanente do que nós mesmos; e pode significar o dispêndio da própria vida com coisas imortais. Arendt retoma Agostinho, que, embora dificilmente seja o pai de nosso conceito de História, é provavelmente o autor espiritual e com certeza o maior teórico da política cristã, devido ele aditar à noção cristã de uma vida eterna a ideia de uma cidade futura, onde os homens mesmo após a morte continuariam a viver em uma comunidade. Hannah Arendt termina seu ensaio constatando que a época moderna, com sua crescente alienação do mundo, conduziu a uma situação em que o homem, onde quer que vá, encontra apenas a si mesmo. Nessa situação de radical alienação do mundo nem a história nem a natureza são um absoluto concebíveis, essa dupla perda conceitual deixou atrás de si uma sociedade de homens que, sem um mundo comum que a um só tempo os relacione e separe, ou vivem em uma separação desesperadamente solitária ou são comprimidos em uma massa. Finalizo esse comentário percebendo como o conceito de história apreendido no estudo da Teologia Bíblica do Novo Testamento tem implicações para o agir de uma pessoa cristã numa sociedade secularizada, mas isso parece-me ser um assunto a ser desenvolvido no estudo da teologia sistemática.