Você sabe o que você quer?

Você sabe o que você quer?

Foto IdaMaraFreire Igatu Chapada Diamantina Ba

Você sabe o que você quer fazer? São muitos os momentos do dia que nos deparamos respondendo ou fazendo essa pergunta. Agora mesmo eu estava perguntando para minha filha: o que você quer fazer?  A leitura da semana publicada no site [ http://wccm.org.br  ] da Comunidade Mundial Meditação Cristã se intitula: “Vontade própria e Vontade divina”. Vamos, então, refletir acerca da percepção da meditação como um processo que nos ensina a fazermos escolhas autênticas tendo como ponto de partida a paz interior.

“A conversão é um compromisso com a criatividade do amor”, escreve John Main. ” Voltarmo-nos para o desamor (o egoísmo) é termos sido cativados pela fascinação da morte. Encontramos isso tanto em indivíduos quanto em sociedade. Em ambos os casos a prosperidade ou a produção material não serve como critério de medição. A única medida confiável é a da profundidade da paz que flui a partir do centro. . . [. . .] A conversão, para todos nós, demanda significativos ajustes em nossa vida, em nosso ponto de vista. Podemos pensar acerca desses ajustes, mas não será por meio do poder do pensamento que eles serão levados a efeito. Eles só podem ser integrados em nossa vida a partir do poder criativo que encontramos em nosso próprio coração. É por isso que entenderemos melhor a meditação não como um processo de auto-desenvolvimento, ou como uma ferramenta que empregamos para os fins que desejamos, mas, como um processo de aprendizado, um processo e de crescente humildade. . . .
A importância da meditação é tanta porque só alcançaremos a verdade se tivermos a confiança para encará-la. Essa confiança surge a partir do encontro com o amor puro de nossos próprios corações. O que é verdadeiramente importante de se saber na vida, para a vida, é que Deus é, e que Deus é amor. . . É muito simples. . . Caso enxerguemos isso claramente, poderemos ver que nossa própria jornada espiritual, nossa própria prática religiosa, nossa vida pessoal, tudo está permeado pela luz transformadora do amor redentor de Cristo.”  Vontade própria e Vontade Divina Extraído do livro de John Main OSB, THE PRESENT CHRIST (New York: Crossroad, 1991) pgs. 85-87.

Penso que para distinguirmos  a vontade própria e a vontade divina, precisamos saber o que queremos. E isso envolve fazermos escolhas.  Aprender fazer escolhas autênticas é uma parte importante para esclarecermos qual é a vontade divina para cada uma de nós. A meditação pode nos ajudar a saber o que queremos, proponho um exercício que criei ao ler  Sage Lavine [ http://sagelavine.com ]:

  1. Pegue uma folha de papel, um lápis ou caneta.
  2. Medite por Trinta Minutos
    Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração “Maranatha”. Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.
  3. Em seguida leia com atenção  e responda as seguintes perguntas:
  • O que você mais gosta de fazer?
  • Quais sons, cores, sabores e aromas que você mais aprecia?
  • Qual é a sua música favorita?
  • Qual é o momento do dia que você mais gosta?
  • Qual seria a sua rotina diária ideal?
  • Em que dias da semana você gostaria de  ter mais tempo para dançar, cantar, ler um livro, ir ao cinema, escrever, meditar, sair para almoçar,  ir a um café…

Nos próximos dias, atente-se para quando alguém perguntar para você o que você quer fazer?  Lembre-se que há outras escolhas  além de dizer: “Não sei, o que você quer fazer?”

A meditação é um processo de aprendizagem,  que nos ensina a ter como medida,  não nossas habilidades ou  nossas aquisições,  mas a paz profunda que origina no centro do nosso ser. As escolhas que fazemos do nosso próprio coração,   originadas no nosso corpo e  na percepção de nós mesmas, convertidas no nosso compromisso com a criatividade do amor, nos ajudará a compreender e aceitar a boa, agradável e perfeita Vontade de Deus.

Você sabe o que você quer fazer agora?

 

original em inglês:

From John Main, OSB, “Self-Will and Divine Will,” THE PRESENT CHRIST (New York: Crossroad, 1991), pp. 85-87.

Conversion is commitment to the creativity of love. To be turned towards non-love (egoism) is to be enthralled by the fascination for death. We find this in individuals as well as in societies. In both cases, material prosperity or production is no yardstick for true creativity. The only trustworthy measure is the depth of peace flowing from the centre. . . [. . . .] Conversion requires in all of us significant readjustments in our life, in our angle of vision. These readjustments can be thought of but they cannot be effected by thought. They can only be integrated into our life from the creative power of love that we find in our own heart. That is why we best understand meditation, not as a process of self-improvement, or as a tool we employ for desired ends, but rather as a process of learning and deepening humility. [. . . .]
Meditation is of such importance because we can only come to the truth if we have the confidence to face it. This confidence arises from the encounter with pure love in our own hearts. The really important thing to know in life—for life—is that God is and that God is love. . . .It is very simple. [. . . .] If we see this clearly, we can see our own spiritual journey, our own religious practice, our personal life, all shot through with the transforming light of Christ’s redemptive love.

Contemplar ou Mergulhar

Contemplar ou Mergulhar

Foto: Ida Mara Freire

Escrita: uma conversa dançada com o leitor

Por Ida Mara Freire

“Em virtude desse olhar as feições se fizeram rosto e, mais tarde, máscara, significação, história.” Estou aqui no Labirinto da Solidão de Octavio Paz atenta ao seu exercício de imaginação crítica dos mexicanos, homens e mulheres:

“O adolescente se assombra com o ser. E ao pasmo segue-se a reflexão: inclinado para o rio de sua consciência pergunta-se se este rosto que aflora lentamente das profundezas, deformado pela água, é o seu. A singularidade de ser – mera sensação na criança – transforma-se em problema e pergunta, em consciência inquisidora. Aos povos em transe de crescimento ocorre alguma coisa parecida. Seu ser se manifesta como interrogação: o que somos e como realizaremos isto que somos? […] Despertar para a história significa adquirir consciência da nossa singularidade, momento de repouso reflexivo antes de nos entregarmos ao fazer. […] A preocupação com o sentido das singularidades do meu país, que partilho com muitos, parecia-me há tempos supérflua e perigosa. Em vez de perguntarmo-nos a nós mesmos, não seria melhor criar, trabalhar sobre a realidade que não se entrega àquele que a contempla, mas sim àquele que é capaz de nela mergulhar? O que pode nos diferenciar do resto dos povos não é a sempre duvidosa originalidade de nosso caráter – fruto, talvez, das circunstâncias sempre mutantes –, mas sim a de nossas criações.”

Sexta-feira, após caminhar na praia, volto para casa e começo a escrever o exercício contemplativo 11. Mas, ao preparar o material fui me envolvendo numa teia de pensamentos que estou ainda suspensa, principalmente,  acerca dos temas que escrevo e, como tal escrita inspira vocês:  leitor e leitora,  a contemplarem e a  mergulharem na realidade para  criarem algo novo.  Embora, é sugerido manter uma periodicidade nas publicações, busco também,  não só produzir conteúdo, mas, além disso, estabelecer uma conversa dançada com vocês.  E uma conversa envolve tempo, silêncio, pausa da ação. Então,  ouvindo vocês e dançando com as palavras, surge o ritmo da realidade contemplada e mergulhada, e assim acontecerá a história aqui narrada.

Escrita acerca do brilho

Escrita acerca do brilho

Exercício Contemplativo 10
Por Ida Mara Freire

Gente é para brilhar e não para morrer de fome. Assim, falou Maiakóviski. E no exercício contemplativo dessa semana, vamos observar o brilho dos corpos terrestres e dos corpos celestes. Comecemos com a leitura:

A TARDE ARDIA COM CEM SÓIS

★ ★ ★

BRILHAR PRA SEMPRE
BRILHAR COMO UM FAROL
BRILHAR COM BRILHO ETERNO
GENTE É PARA BRILHAR
E QUE TUDO O MAIS VÁ PRO INFERNO
ESTE É O MEU SLOGAN
E O DO SOL

O poema do poeta russo Vladímir Maiakóvski me vem à mente ao escrever acerca do brilho. Do brilho desvelado no corpo de quem dança, que observei nos dois festivais que participei durante o mês de julho, uma como espectadora qualificada, ou seja, membro do corpo de jurados e outra na qualidade de mãe espectadora.

O primeiro foi o Festival das APAES, com 30 apresentações de dança e dança folclórica, entre solos, duos e grupos classificados em todo Estado de Santa Catarina. O corpo diferente põe em evidência a singularidade presente em cada ser humano. Faz pensar como uma sociedade, que prima pela a uniformidade e ignora a diversidade, fere com a dor, com o medo, com a rejeição, com a discriminação e com o preconceito. Mas, quando o corpo diferente está em cena, de repente faz brilhar a vida presente na diferença. E a celebração acontece. Os versos da música “Realce” de Gilberto Gil, parecem-me oportunos para descrever essa experiência.

“Não desespere
Quando a vida fere, fere
E nenhum mágico interferirá
Se a vida fere
Como a sensação do brilho
De repente a gente brilhará.”

Em seu livro “Todas as letras”, Gilberto Gil explicita que “Realce” foi escrito em uma época em que ele se introduzira na meditação, entendida como uma arte mais formal e rigorosa de pensar-se e refletir-se, estava interessado nas possíveis traduções da filosofia oriental para o idioma da canção. “Realce” é resultado de um processo profundo e ruminante, um longo trabalho de elaboração e meditação, sendo uma canção sobre o wu wei, termo chinês que significa “ação e não ação”, ou a impotência que se torna potência, ou esgotamento dos contrários nas suas polaridades.

O Festival de Joinville, fez ver as nuances dos brilhos do corpo que dança. Fui para Joinville, como acompanhante de minha filha, e não estávamos sós, e sim, com um grupo de meninas dançarinas, algumas com suas mães e outras não. Fomos de ônibus, fretado e o roteiro foi organizado pela professora de dança da escola. Saímos por volta das oito da manhã e retornamos por volta das duas da manhã. A empolgação de escolher sapatilhas de tantas cores e tamanhos, foi seguida pela visita guiada na escola Bolshoi, onde um jovem dançarino, ao apresentar cada espaço do Bolshoi, incluía ali sua própria corpografia, narrando sutil e, em alguns momentos, divertidamente, seu singular modo de viver a formação em dança. Mas, o brilho do corpo resplandeceu durante as premiações dos melhores, ainda que o lugar que estávamos não favorecia vermos o palco por inteiro, era evidente que, quem ali dançou, muito trabalhou. E nessa noite apareceram novas estrelas na constelação da dança.

E, ainda, falando do brilho dos corpos terrestres, recentemente assisti o documentário intitulado “Nostalgia da luz”, dirigido pelo chileno Patricio Guzmán, que mostra no deserto de Atacama, onde se encontra um dos melhores lugares do planeta para observação astronômica, um grupo de mulheres chilenas procurando os corpos de familiares desaparecidos durante o período de ditadura militar de Pinochet. Com uma impávida lucidez poética, Patricio Guzmán compara essas mulheres com os astrônomos, enquanto eles olham para cima em busca de corpos celestes, elas olham para baixo, vasculham o deserto em busca de corpos terrestres. Nessa investigação acerca dos rastros de luz deixados pelos corpos celestes e terrestres, o filme salienta a importância do brilho da memória, ao demonstrar que as pessoas com alguma memória, vivem no presente, mas, quem não tem memória alguma, não vive em lugar nenhum.

A dança ao fazer o corpo terrestre brilhar, recorda o nosso destino celestial. Afinal,o cálcio encontrado nos ossos, que equilibram nossos movimentos pela vida afora, também é encontrado nas estrelas…

E uma estrela em forma de canção, chega, assim de mansinho, na voz de Vitor Ramil:

Estrela, estrela
Como ser assim
Tão só, tão só
E nunca sofrer

Brilhar, brilhar
Quase sem querer
Deixar, deixar
Ser o que se é…

Para ler e ouvir as canções: “Realce” de Gilberto Gil
http://www.gilbertogil.com.br/

e “Estrela, Estrela” de Vitor Ramil
http://www.vitorramil.com.br/discos/tambong.htm#12

Para ver: filme Nostalgia da Luz de Patricio Guzmán
http://canalcurta.tv.br/pt/filme/?name=nostalgia_da_luz

Para escrever: Os segredos na estrela. Imagina que uma estrela desceu à Terra para te conhecer. Ela conhece todos os segredos do universo e contém em si todas as respostas do mundo. Aproveita para lhe colocares todas as questões que gostaria de ver respondidas, todas as suas dúvidas. Escreve as tuas perguntas e as respostas que ela te daria. Registra no teu Diário as tuas maiores dúvidas, o que sentiste ao escrevê-las e vê-las respondidas e lembra-te que se conseguiste responder é porque as respostas estão, em algum lugar, dentro de ti. ( Sugerido por: Ana Malfada Damião, em seu livro: Escrita Curativa: o poder da escrita na transformação pessoal)