O desafio do Perdão

O desafio do Perdão

Foto e texto por Ida Mara Freire

Estou aqui impactada com a leitura do livro da  jornalista e escritora ucraniana Svetlana Aleksiévith, vencedora do  prêmio Nobel de literatura 2015.  Um título sugestivo: A guerra não tem rosto de mulher.

Em suas palavras:

“Não estou escrevendo  sobre a  guerra, mas sobre o ser humano na guerra. Não estou  escrevendo a história  de uma guerra, mas  história dos sentimentos. Sou uma historiadora da alma.”

Nas palavras de suas entrevistadas:

“Eu era atiradora  de metralhadora . Matei  tanta gente… Depois da guerra passei muito tempo com medo de engravidar. Engravidei quando acalmei. Sete anos depois… Mas até hoje não perdoei nada. Eu não vou perdoar… Ficava feliz quando via os prisioneiros alemães. Feliz com a situação lamentável em que estavam: trapos enrolados nos pés em vez de botas, trapos na cabeça… Atravessavam o vilarejo e pediam: ‘Mãe, me dê pão. Um pouco de pão…’ Fiquei surpresa de ver que os camponese saíam das cabanas e davam – um pedacinho de pão, uma batatinha… Os meninos corriam atrás da coluna e jogavam pedras… e as mulheres choravam… Acho que vivi duas vidas: uma como homem, outra como mulher…”

Nas minhas palavras:

Ao escrever quase que  diariamente sobre o perdão, quando deparo-me com um depoimento como dessa atiradora, a pergunta que me ocorre é saber:  onde habita a dor do outro em meu corpo?

 

O que  escrever depois de uma caminhada…

O que escrever depois de uma caminhada…

Exercício contemplativo 5

“A liberdade é como o movimento não se define, demonstra-se.” Girardin

Hoje, bem cedinho, exploro a trilha da Igreja São Sebastião, aqui no Campeche, converso com uma moradora que fala do desmatamento sutil; um outro morador, reconhece em mim outro ser, buscando confirmação, indaga-me: Doralice?
Um caminho faz pensar, por aquilo o que você encontra quando por ele está a passar. Percebe-se que nem tudo o que se mostra estamos interessadas a ver.

Para ver:

Amanhã sábado 14:30 nas dunas da Joaquina, Ação 6 última intervenção do projeto Corpo, Tempo e Movimento, com Diana Gilardengui e Sandra Nunes.
Participe da Convers-ação 16:30 na Casa das Máquinas na Lagoa. Venha ver Onde a Dança Acontece…

Para Escrever:

Após uma caminhada, busque recordar-se de algo que você viu, mas gostaria de não ter visto? Escreva sobre essa experiência, por dez minutos sem parar.

Para ler:

Mario Quintana | Pequeno Poema de Após Chuva
Frescor agradecido de capim molhado
Como alguém que chorou
E depois sentiu uma grande, uma quase envergonhada alegria
Por ter a vida
Continuado…

Bom final de semana. Espero ver vocês amanhã, vamos caminhar nas Dunas

Memória Dilatada

Memória Dilatada

Por Ida Mara Freire/ Foto: Clara Meirelles

O lembrar e o esquecer nos tornam humanos, ensina as leituras de Paul Ricoeur. O tempo vivido em lutas, doenças, feridas, traumas cravam na memória corporal povoando-a de lembranças. A recordação, os graus de rememoração vão pouco a pouco preparando a narração a ser escrita, dançada, e por que não gritada. Grito diante da plateia paciente a esperar o espetáculo começar… como provoca Olga Gutiérrez ao encerrar ontem a noite, no Ceart/Udesc, o Festival Internacional Múltipla Dança, que nesse ano apostou na ocupação de vários pontos da cidade, alcançando assim um número aproximado de 1500 espectadores.

Como no sábado, dia 28 de maio, a contemplação de diferentes lugares da Ponta do Coral, sugerida na intervenção urbana, as dançarinas Diana Gilardenghi e Sandra Nunes, compõem com um coral silencioso uma caminhada, a mostrar que nos movemos dentro de uma realidade impregnada de um passado exuberante e de um futuro obscuro, revelado no contraste de cada passo do momento atual, pois, embora não se possa negar a beleza da paisagem , é necessário o uso de máscaras para não se intoxicar com o cheiro ao redor e, o uso de luvas para não se contaminar com aquilo que está a alcance das mãos.

Na noite de sábado, no teatro do Sesc – Prainha, estreia no Múltipla o espetáculo Rec(L)usadx, que se mostra como uma memória episódica dos eventos que escancaram a vulnerável condição feminina que deixa qualquer menina amedrontada. Tendo como espaço de ensaio a sala de sua casa, a dançarina Elke Siedle compõe seu solo para guitarra em Só Maior , sua dança soçobra a plateia na fragilidade nua de ser humana. O tecido vermelho que no início da cena desenha um círculo imperfeito no chão, em um tempo ritual, veste o corpo com requintada fatalidade e dor. A luz que inebria , de súbito estoura, abrindo os olhos do espectador que já não vê mais a dança, mais lê no programa que: “A intervenção estética pela metáfora do excesso de derramamento de sangue expõe a urgência em ressignificar experiências relacionais intersubjetivas.”

No círculo das memórias internas e externas proposto por Rui Moreira, na oficina Danças Negras Contemporâneas, no Studio Afrika, localizado no Canto da Lagoa, na sexta- feira pela manhã, a simplicidade tem o seu lugar garantido, a busca do prazer pela dança é questionada e ampliada pelo compromisso consigo e com o outro. Jussara Belchior, participante da oficina e integrante do Múltipla Escrita, descreve que: “Compartilhar as sensações e reflexões advindas da prática é um jeito de dilatar a memória. No início, Rui Moreira mencionou que o trabalho da memória contava com um pouco de imaginação, ao fim, a imaginação concretiza-se como uma experiência-convite da partilha. Essa experiência, de “danças negras contemporâneas” é, sobretudo, um chamado a refletir sobre as bagagens, os cruzamentos e as potências nas histórias dos corpos.”

Homenagear é também um ato de rememorar, nas palavras de Ana Lúcia Ciscato “receber uma homenagem é sempre muito bom. Reafirma uma trajetória e traz estimulo para a continuação da mesma. Um festival que tem como objetivo a visualização da Pluralidade da dança, homenageando um trabalho que busca a profissionalização de bailarinos considerados com deficiência , mostra que um espaço para dança inclusiva está sendo aberto.” Leitora e Leitor, percebo que vocês não se esqueceram que dançar é também um ato político. E isso é memorável…

Texto publicado no Jornal Notícias do dia: ndonline, 31/05/2016

http://ndonline.com.br/florianopolis/plural/306404-critica-multipla-danca-terminou-no-domingo-enfatizando-que-dancar-e-tambem-um-ato-politico.html