Mostra de Cinema Sul Africano

Mostra de Cinema Sul Africano

Por Ida Mara Freire
Participar como mediadora na Mostra de Cinema Sul Africana, com curadoria de Adriana Miranda, promovida pelo Museu da Imagem e do Som, foi uma experiência que fez reconhecer como um ano passado na África do Sul alterou minha existência e minha percepção do outro. Cada filme da mostra foi trazendo a memória do tempo vivido com minha filha, no primeiro dia dao filme Into the Shadows – Nas Sombras de Pepe Bonet e Line Hadsbjerg, conta o sofrido dia a dia dos imigrantes, as imagens em preto e branco dos cultos na Igreja Metodista avivou a experiência colorida e multicultural que fazia parte de nossas manhãs de domingo. No segundo dia a música de protesto no filme This is Zamrock de Calum MacNaughton e o ritmo de Mama Goema de Angela Ramirez, Sara Gouveia e Calum MacNaughton, foram suficientes para sentir embalada e revisitar a bela Cidade do Cabo. Ao mediar o filme Miners shot-down Mineiros Abatidos dirigido por Rehad Desai, na terceira noite da mostra juntamente com o antropólogo sul africano Mathew Wilhelm-Solomon e o policial,cientista Social Gabriel Paixão, a dança sul africana toyi-toyi foi o foco da minha contribuição, destaquei três pontos:a) a dança como uma ação não-violenta; b) a dança que cria comunidade; c) a dança que transforma o opressor. Refletindo com Hannah Arendt e sua noção da banalidade do mal, indaguei se uma pessoa que dança/pensa pode fazer o mal? A questão central, no entanto, é quando se esquiva dessa interação consigo mesmo. Pois, essa habilidade de distinguir o certo e o errado, o belo e o feio, pode impedir a ocorrência de catástrofe, ao menos para si mesmo.
Veja alguns vídeos sobre a mostra:

http://www.africandocumentaryfestival.com/

O invisível na dança: exercícios contemplativos

O invisível na dança: exercícios contemplativos

O invisível na dança: exercícios contemplativos

Por Ida Mara Freire

Estou iniciando uma série de postagem no blog intitulada “O invisível na dança: exercícios contemplativos”, motivada por vocês: estudantes, professores, pesquisadores e pessoas interessadas na dança na contemporaneidade, que tempos em tempos recebo convites para uma conversa sobre escrita, silêncio, processo criativo na dança,   outros me perguntam sobre os temas que tenho publicado aqui no site como por exemplo, a cegueira, a meditação, África do Sul.  O exercício que pretendo publicar aqui semanalmente contém sugestões de atividades que envolvam o ver ou o não ver, o ler e, o escrever.  Atualmente, quem aprecia dança é convidado a construir sentidos daquilo que vê e daquilo que não vê. A ideia aqui é chamar atenção para tantas coisas que estão ou não presentes na dança. Também pretendo, com isso, criar um espaço de troca, e continuar contando com os comentários de vocês sobre suas experiências de apreciação da dança e suas sugestões de temas que gostariam de saber mais sobre o assunto. Agradeço a atenção e a disposição de vocês!

O exercício contemplativo dessa semana tem como foco a iluminação na dança, apresento como  sugestão dois trabalhos de dança: a Ação 3, do projeto Corpo, Tempo e Movimento e a estreia do Balé Cidade de São Paulo em SP, a leitura sobre a arte da iluminação; e escrita acerca da observação da luz…

Segunda-feira, dia 6 de junho 11 horas da manhã, no Largo da Alfândega, se chover a ação será cancelada, Diana Gilardenghi e Sandra Nunes estarão apresentando a Ação 3 intitulada Linhamar do projeto Corpo, Tempo e Movimento, será um ótimo exercício de percepção da luz em espaço aberto.

Quem tem possibilidade de assistir em São Paulo a estreia dia 08 de junho do Balé da Cidade de São Paulo, no Theatro Municipal vai poder constatar um espetáculo assinado por   três coreógrafos internacionais: “Corpus” do português André Mesquita, que em entrevista com Fabiana Seragusa: diz que: “Ver a dança é ver o corpo revelado, sua potência e sua eloquência… A dança é uma filosofia observável”; “Adastra” é assinada pelo coreógrafo catalão Cayetano Soto, o vídeo https://youtu.be/XQVTLYCbYVE mostra algumas das suas obras, e, “O balcão do amor” quem assina é o israelense Itzik Galili; primoroso em seu trabalho com a luz, já fez parceria com Yaron Abulafia autor do “The Art of light”, que aproveito para indicar a leitura  aos interessados no tema da iluminação, o acesso ao livro ao primeiro capítulo do livro em inglês, que aborda a iluminação nas dimensões estética, fenomenológica, semiótica e poética, pode ser no site do autor http://www.yaronabulafia.com/book/

Para as pessoas interessadas na escrita, vou sugerir o exercício inspirado na leitura do livro “Word Painting” de Rebecca McClanahan:

* Para engajar nosso olho imaginativo, mude   um ato comum ou habitual e acrescente uma nova dimensão. Por exemplo, beba meio copo de água de três diferentes maneiras,   em três lugares iluminados distintamente: muita luz, pouca luz, e com os olhos fechados. Em seguida, escreva uma descrição de cada experiência. Escreva aqui no site seu comentário sobre qual sentido ficou mais evidente em cada situação?

 

 

 

 

 

Contando as Palavras

Contando as Palavras

 

O espaço da escrita em um jornal se define muitas vezes pelo número de palavras ou caracteres. Mas o leitor e a leitora reconhecem que escrever não é meramente a resolução de uma operação matemática, exige um outro tipo de exatidão: a de buscar um novo sentido.

Ao colaborar com o Caderno Plural, do Jornal Notícias do Dia, acerca das experiências da dança na contemporaneidade, a escrita desvela-se como um espaço de criação de sentidos para quem escreve e para quem lê. A leitora Marisa Dionísio comenta: “É muito bom poder ler ensaios tão bem escritos com tanta propriedade sobre a dança. É uma construção maravilhosa de apreciação dessa arte para um público mais abrangente em um jornal diário. Eu como dançarina e amante de vários tipos de dança me sinto presenteada por essa leitura gostosa e tão informativa.”

O novo é extraído da transformação de sentido que se dá entre o dançarino, a sua dança e a plateia. Escrever acerca da dança aqui na sua totalidade, mais do que se diz palavra por palavra, trata-se de lançar o leitor em direção ao que apreendi e que ele ainda não compreendeu ou de orientar-me, eu mesma em direção ao que vou compreender a medida que escrevo. No espaço vazio e silencioso entre o texto e o corpo de quem lê, a equação matemática dos caracteres contados transfigura-se em dança e o gesto escrito se realiza em movimento dançado.

Nas palavras da coreógrafa Zilá Muniz, doutora em Teatro e diretora do Grupo Ronda: “O papel do crítico, a meu ver, é o de mediador e colaborador que traz um olhar mais especializado sobre a dança que se produz. Neste sentido, aproxima o leitor/espectador da complexidade que é a dança e seus fluxos e qualidades inerentes de cada linguagem, de cada artista e seus procedimentos de criação. Além disso, a crítica por ser uma mediação, como processo é também uma criação que envolve composição e seus intercessores atravessam a linguagem da dança, sendo assim, mais um modo operativo de dançar com as palavras a dança que foi dançada por corpos/bailarinos.”

O olhar que lanço sobre a dança me retorna. A percepção do outro, assemelhada com Merleau-Ponty, tem como habitação o fato de que tudo o que pode me fazer ver só ocorre tendo acesso a minha experiência e entrando no meu mundo, mas que reivindica como testemunha não apenas o que vejo e escrevo mas também o olhar e a leitura do outro. Como artista, a pesquisadora Zilá Muniz salienta a relevância para o seu trabalho e do grupo o artigo/crítica do espetáculo Socorro: “A crítica foi uma ferramenta que nós do Ronda Grupo utilizamos em materiais vinculados a projetos para editais e divulgação do espetáculo. Também nos fez olhar de volta para o trabalho com uma visão distanciada e fresca ao mesmo tempo, como uma inspiração renovada.” É desse encontro entre quem escreve e quem lê que o espetáculo acaba por atribuir um espectador para além da própria dança e as palavras contadas criam um novo sentido no mundo.

Texto publicado no caderno Plural, do jornal Notícias do Dia em 1 de abril 2016-04-04; Agradeço Cristiano Prim, Dariene Pasternak, Marisa Dionísio e Zilá Muniz pela colaboração e parceria.

Ida Mara Freire, pós-doutorado em Dança, Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul. idamara@idamarafreire.com.br