O QUE HÁ EM COMUM ENTRE ESCREVER, DANÇAR, NADAR E CAMINHAR?

O QUE HÁ EM COMUM ENTRE ESCREVER, DANÇAR, NADAR E CAMINHAR?

Recentemente estive no retiro nacional da Comunidade Mundial da Meditação Cristã. Na tarde de sábado o grupo foi convidado para fazer uma Caminhada Contemplativa. Entre pessoas, folhas, flores, pedras, lado a lado, leves passos eu dei. Hoje, aqui em casa, essa pratica retomei.  Enquanto  passos ritmados no jardim demarquei, notei:  a cachorra inquieta, parada e atenta, dos meus passos lentos a desconfiar. A cada passo  dado eu respiro,  interrompo a procissão das formigas a devorar velozmente a trepadeira  ‘Lágrima de Cristo’. Tal visão incomoda o coração. Respiro. Caminho. Devagar.  Observo o dançar da folhas embaladas pelo vento que chega do mar. Vem vamos brincar…

O que há em comum entre o escrever, o dançar, o nadar e o caminhar?  Indago ao caminhar. Respondo: o respirar. E assim, inspiro e acompanho, o caminho do ar no meu corpo. Lembrei da professora de natação, chamando a minha atenção, pois eu deveria aprender a distribuir o ar no corpo durante a braçada, a quantidade de ar ingerido deveria chegar até a ponta do dedão do pé para sustentar a pernada.  O que me fascina na natação, e também me desafia, é a sincronização das ações:  o respirar, o flutuar, o fluir, o desfrutar da horizontalidade.

Eis que me vem à memória a belíssima correlação entre a arte da natação, a psicanálise e o artista – que Ricardo Piglia faz  em seu livro  Formas Breves,  trecho que cito a seguir:

“Enquanto  estava escrevendo o Finnegans Wake era sua filha, Lucia Joyce, quem ele escutava com muito interesse. Lucia acabou psicótica, morreu internada numa clínica suíça em 1962. Joyce nunca quis admitir que sua filha estivesse doente e procurava instigar-la a sair, a buscar na arte um ponto de fuga. Uma das coisas que Lucia fazia era escrever. Joyce a instigava a escrever, lia seus textos, e Lucia escrevia, mas  ao mesmo tempo se colocava sempre em situações  difíceis, até  que por fim recomendaram a Joyce que fosse consultar Jung. Estavam vivendo na Suiça, e Jung, que escrevera um texto sobre o Ulysses e portanto sabia muito bem quem era Joyce, tinha ali sua clínica. Joyce então  foi vê-lo, para lhe expor o dilema da filha, e disse a Jung: “Aqui estão os textos que ela escreve, e o que ela  escreve é o mesmo que eu escrevo”,  porque ele  estava escrevendo o Finnegans Wake, um texto totalmente psicótico, se o olharmos  dessa perspectiva: inteiramente fragmentado, onírico, atravessado pela impossibilidade de construir com a linguagem outra coisa que não seja a dispersão. Assim, Joyce disse a Jung que sua filha escrevia a mesma coisa que ele, e Jung lhe respondeu: ‘Mas onde você nada, ela se afoga’. É a melhor definição que conheço entre um artista e… outra coisa, que não vou chamar de outro modo que não esse. De fato, a psicanálise e a literatura  têm muito a ver  com a natação. A psicanálise é um certo sentido  uma arte da natação, uma arte de manter à tona no mar da linguagem pessoas que estão sempre fazendo força para afundar. E um artista é aquele  que nunca sabe se vai poder nadar: pôde nadar antes, mas não sabe se vai poder nadar da próxima vez que entrar na linguagem.”

O que há em comum entre o escrever, o dançar, o nadar e o caminhar? Indago ao escrever. Respondo: o contemplar. Mas, isso já é assunto para outro post…

Vamos apreciar o belo poema da Cecília Meirelle intitulado ‘Inscrição’

Sou entre flor e nuvem,
estrela e mar. 
Por que havemos de ser unicamente humanos, limitados em chorar?
Não encontro caminhos
fáceis de andar.
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras que não sabem de água e de ar.
E por isso levito.
É bom deixar
um pouco de ternura e encanto indiferente de herança, em cada lugar.
Rastro de flor e estrela,
nuvem e mar.
Meu destino é mais longe e meu passo mais rápido: a sombra é que vai devagar.

E para você o que há em comum entre o escrever, o dançar, o nadar e o caminhar?