Por que ficamos paralisadas?

Por que ficamos paralisadas?

Fotos: Ida Mara Freire – Lagartas em árvores Igatu – Chapada da Diamantina  Ba

Lagartas e Borboletas: Por que ficamos paralisadas?

Ida Mara Freire

 

Anos atrás quando preparava aula sobre a Páscoa para as crianças do Maternal, me deparei com uma apostila mimeografada (você se lembra do cheiro do álcool?), a cópia se intitulava “Páscoa: tempo de transformação” e ali estava ilustrado uma lagarta, um casulo e uma borboleta; associada com a vida, a morte e a ressurreição. Desde então as lagartas recebem minha atenção e as borboletas se apresentam para mim como uma epifania.

Contam-que num certo dia a centopeia vinha em seu caminhar a deslizar–se pelas folhas e talos com tal graciosidade, e seus minúsculos pés se deslocavam com rapidez e agilidade, numa sinuosidade de deixar qualquer serpente admirada. Alias, eram muitos seus admiradores, todos adoravam vê-la a dançar. Todos não. Havia, a tartaruga, criatura lenta, um tanto pesada, e por viver na terra e no mar, vivia a carregar a sua casa, e a se esconder sempre que possível ou quando necessário. Ainda que tais características no reino animal tinham suas vantagens, a tartaruga tinha muita dificuldade de aceitar a si mesma, e sempre que atentava para a desenvoltura do caminhar da centopeia ela começava a inquietar-se e duvidar de si mesma. Foi quando ela notou que a centopeia estava por passar por ali e então se pôs no meio do caminho, de modo a ser notada e perguntou: Olá ligeirinha, onde vais sempre com tanta pressa? Gostaria de saber qual é o segredo de sua andança tão leve, tão ritmada. Me explica já que tens tantos pés, quando vais para a direita qual pé movimenta primeiro? O 44 da direita o 79 da esquerda. Na descida o que faz para não despencar de uma só vez? Mostra-me como tu faz? A pequena centopeia ficou paralisada diante da interpelação, pois ao nascer já com tantos pés, não tinha até o momento parado para pensar em como fazia para se movimentar,   o fato é que seu andar parecia lhe bastar e agradar. Mas, ao se ver pelo olhar do outro, não se reconheceu e se encolheu e nunca mais se moveu como antes.”

A fábula livremente alterada do livro “O mundo de Sofia” de Jostein Gaardner (1995) me faz lembrar dos momentos em minha vida que fiquei paralisada. Recordo-me do período em que estava envolvida em vários projetos ao mesmo tempo: frequentava as aulas de doutorado na USP, era assessora da Secretária da Educação de Piracicaba, ministrava aulas no curso de Pedagogia na UNIMEP, e aos domingos cantava no Coral da Igreja Metodista. Certo dia, no fusca amarelo, indo de carona para estação do Metrô na Paulista, com colegas que tinham rotinas semelhantes as minhas, o cansaço não favoreceu meus reflexos visuais distinguir que o trânsito estava parado na Av. Rebouças, e em câmera lenta percebi o carro indo na direção da traseira do outro e… o baque! Bati a cabeça no vidro do carro, somado com o peso do corpo da minha amiga que estava sentada atrás de mim, na época não era obrigatório o cinto e até onde me lembro, o fusquinha não tinha esse aparato em bom estado. O resultado do impacto foram algumas horas de amnésia. Um fato curioso foi na tentativa da minha colega tentar recordar-me quem eu era, dizendo: Você é a Ida, a Ida Mara, você faz doutorado em psicologia na USP. Eu respondi rindo; “Nossa isso pode ser preocupante, se sou aluna de doutorado em psicologia como vou fazer valer esse título se eu não me lembrar do que conheço?”

Mas, a consciência maior veio quando, já sendo cuidada na casa de meu irmão, em São José dos Campos, meu pai chega, e ao me ver deitada no sofá da sala, diz: “A ordem das coisas é eu ir primeiro, não se atreva em mudar isso…” Naquele instante eu indaguei a mim mesma: “Que estilo de vida eu estou vivendo para manter essa ordem das coisas?

Percebi que meu corpo estava me ensinando algumas lições:

  1. Esteja atenta. Não durma no trânsito, mesmo quando você é o carona. É bom manter o motorista acordado.
  2. Mantenha o senso de humor. Mesmo quando a coisa pareça séria, o riso alivia a tensão, e favorece a criatividade.
  3. Seja consciente da ordem das coisas. Nascemos, vivemos, morremos, para quem crê na eternidade – ressuscitaremos.

Borboletas…

Como escreve Saint-Exubéry no Pequeno Princípe: “É preciso que eu suporte duas ou três lagartas, se quiser conhecer as borboletas…”DSC05683

E você, conta para mim em que momentos você se sentiu paralisada como uma lagarta, mas algo dentro de você te chamou para dançar a vida como uma borboleta…

 

 

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