O que é o tempo?

O que é o tempo?

Resenha: A eternidade com atributo de Deus e a medida do tempo humano.

No módulo Teologia Sistemática 1, ministrado pelo professor Antonio Neto, o tema da temporalidade foi abordado ao se estudar os atributos de Deus, sendo a eternidade um dos atributos “incomunicáveis” de Deus. O que é, pois o tempo? Brevemente, apresento a seguir como alguns estudiosos da teologia abordam a temporalidade, primeiro Nilton Bonder ajuda nos a examinar como o pressuposto da existência de Deus afeta a nossa própria capacidade de compreendermos a nós mesmos. Agostinho em suas Confissões vai apresentar o tempo como um vestígio da eternidade, e como Paul Ricoeur vai identificar na estrutura do obra narrativa a solução, que Agostinho nos oferece sobre o tempo humano. Para finalizar, apresento o sentido do tempo no hebraico, que nos ajuda a perceber o tempo não como um rastro no caminho, mas um convite para um encontro entre a criatura com seu Criador.

 

Lemos em Nilton Bonder que “a questão da existência de Deus nos mobiliza profundamente não tanto pela curiosidade, mas por acobertar uma angustia original. (…) Um fator importante desta angústia provém do fato de Deus se excluir não apenas da criação mas, em particular, do tempo. A possibilidade de que algo possa estar fora do tempo questiona o parâmetro mais palpável de nossa relação com a existência. Afinal, é no tempo que nos percebemos e é nele que resgatamos a memória do que já existiu. […] Relutamos em aceitar que haja um tempo distinto do tempo lógico, um tempo da existência que não seja composto de passado, presente e futuro. A invisibilidade de Deus, talvez seja o resultado de ser Ele o UM que é exterior ao fluxo do nosso tempo. Deus habitaria num outro tempo: em nenhum dos três tempos que conhecemos, mas em um quarto tempo que é o sempre. Esse tempo no qual também estaríamos imersos, embora nos seja imperceptível aos sentidos, é um parâmetro intuitivo presente em nossa consciência. (…) Quando o sempre nos faz companhia, Deus e outras realidades se descortinam, quando desbota, se configura como uma fantasia. (Bonder, 2011 p. 12)

 

Fantasia essa que leva alguém indagar “o que fazia Deus antes da criação do mundo”, como sugere Agostinho no Livro XI de suas Confissões. Ele constata: “Precedeis, porém, todo o passado, alteando-Vos sobre ele com a vossa eternidade sempre presente. Dominai todo o futuro porque está ainda para vir. Quando ele chegar, já será pretérito. Vós, pelo contrário, permaneceis sempre o mesmo, e os vossos anos não morrem. O tempo é um vestígio de eternidade. (…) “Criastes todos os tempos e existis antes de todos os tempo. Não é concebível um tempo em que possa dizer-se que não havia tempo. (…) Não houve tempo nenhum em que não fizésseis alguma pois, pois fazíeis o próprio tempo” (Agostinho: 1999, 321)

Em sua obra “Tempo e NarrativaPaul Ricoer, (2012) busca examinar como que Agostinho resolve o enigma da medida do tempo humano, destacando a problemática do caráter temporal da experiência humana.   O mundo exposto por toda a obra narrativa é sempre um mundo temporal. O tempo se torna tempo humano na medida em que está articulado de maneira narrativa. Pressupõe-se que a narrativa é significativa na medida em que desenha as características da experiência temporal.

 

Para concluir, nota-se que em Nilton Bonder (2011: 172)  “a inexistência de Deus no tempo nos ajuda a entender um pouco mais de nosso “eu” e de nosso “agora”. Na medida em que somos imagens e semelhanças do Criador, descobrimos aspectos de nossa própria inexistência no tempo que nos completam e nos explicam. Descobrimos assim uma fase transcendente de nosso ser que torna nossa ilusão do tempo menos violenta – ele é mais nosso do que nós dele. Afinal, “tempo” (ZeMaN) em hebraico tem a mesma raiz da palavra convite (aZMaNa). Mais do que uma trilha , talvez o tempo seja um convite. Convite da Presença eterna e inexistente neste tempo para que participemos do infinito banquete de trocas e interações desta rede. ”

 

Obras Citadas:

Agostinho. Confissões. São Paulo: Nova Cultural. 1999.

Bonder, Nilton. Sobre Deus e o sempre. Rio de Janeiro: Rocco. 2011.

Paul Ricoeur. Tempo e Narrativa. São Paulo: Martins Fontes. 2012.