Será que o pensar previne uma pessoa  de fazer o mal?

Será que o pensar previne uma pessoa de fazer o mal?

“O que é o pensar?” e “O que é o mal?”  Quer saber quais são as principais  obras que Hannah  Arendt examina essas questões? Leia a resenha a seguir.

A formulação da noção “banalidade do mal” em Hannah Arendt: Um esboço

O módulo Teodiceia, ministrado pelo professor Marcos Granconato, teve como tema “A existência do mal em um mundo criado por Deus”. Por definição a teodiceia é o campo da teologia que lida com a questão da justiça, integridade e bondade de Deus em face da realidade do mal no mundo. A pergunta que a teodiceia tenta responder é: “como explicar a existência de um Deus bom e poderoso em face da presença do mal no universo?

Muitas têm sido as tentativas de responder essa questão, desde a antiguidade até os dias atuais. Mas, foi a resposta de Agostinho que chamou minha atenção, dentre outras. Pois, esse filósofo cristão se fez presente na experiência de pensamento de Hannah Arendt em sua formulação do problema acerca do mal. Considerando a dimensão do tema, nessa resenha, apresento um esboço da formulação do problema da “banalidade do mal” no pensamento de Hannah Arendt.

Esclareço que meu interesse de tratar desse assunto no módulo de teodiceia, deve-se primeiramente, a tentativa de explicitar como a filosofia e a teologia podem ser aproximadas para pensar as questões contemporâneas tais como a conexão entre a experiência do pensamento e a prática do mal. Objetivo dessa resenha é traçar um percurso introdutório de como Hannah Arendt aborda o problema do mal em algumas de suas principais obras.

Em uma conferência pronunciada em 30 de outubro de 1970, intitulada “Pensamento e considerações morais”, Hannah Arendt relata sobre o julgamento de Eichmann em Jerusalém fazendo-nos lembrar de como sua presença no julgamento do burocrata nazista Adolf Eichmann induziu-a a escrever a sua mais controvertida obra: Eichmann em Jerusalém: um relato sobre banalidade do mal, publicada em 1963.

No primeiro parágrafo do texto “Pensamento e considerações morais”, Arendt esclarece que a expressão “banalidade do mal” refere-se “ao fenômeno dos atos maus, cometidos em proporções gigantescas – atos cuja raiz não iremos encontrar em especial maldade, patologia ou convicção ideológica do agente; sua personalidade destacava-se unicamente por extraordinária superficialidade. Por mais monstruosos que fossem os atos, o agente não era nem monstruoso nem demoníaco; a única característica específica que se podia detectar em seu passado, bem como em seu comportamento durante o julgamento e o inquérito policial que o precedeu, afigurava-se como algo totalmente negativo: não se tratava de estupidez, mas de uma curiosa e bastante autêntica incapacidade de pensar.

Continuando a leitura, no segundo parágrafo, ela demonstra como o seu interesse atraído por essa ausência absoluta de pensamento levou-a a formular o problema acerca do mal, assim exposto:
“Será que a natureza da atividade de pensar – o hábito de examinar, refletir sobre aquilo que vem a acontecer, independente de qualquer conteúdo específico e de resultados – poderia ser tal que “condiciona” os homens a não fazer o mal?”

Percebemos na primeira parte do texto mencionado, a filósofa judaica-alemã avalia que levantar questões tais como: “O que é o pensar?” e “O que é o mal?” apresenta certas dificuldades, pois são questões pertencentes à filosofia ou à metafísica. Notamos que em sua obra “Origens do totalitarismo” (1961) e também na obra “A condição humana (1958)”, Hannah Arendt, influenciada por Kant, refere-se ao mal “radical”; em “Eichmann em Jerusalém” ela, influenciada por Agostinho, refere-se o mal como “banal” e trata-o como um desafio ao pensamento, voltando-se para uma concepção pré-kantiana do mal imaginado como uma “privação” ou “deficiência” do ser. Sobre isso Jerome Kohn comenta: “Embora Agostinho não tenha seu nome mencionado em lugar algum de Eichmann em Jerusalém, é evidente que ele esteve presente em seu raciocínio assim como Kant”.

Vale destacar que a explicitação da incapacidade de pensar em Eichmann não é nem o complemento nem a solução do problema de compreensão da banalidade do mal. Mas, o primeiro passo para entendermos como a ausência de pensamento e um comportamento condicionado podem levar, no sentido de que ele não previne, à pratica do mal em larga escala. Kohn nos lembra que Arendt foi capaz de discernir na imperturbada consciência de Eichmann uma conexão entre sua ausência de pensamento e o mal que ele perpetrava ao tomar as devidas providências para que milhares de pessoas inocentes de qualquer crime fossem “transportadas” para suas mortes. Arendt argumenta que somente pessoas boas são capazes de ter uma consciência pesada. E diante da controvérsia que se seguiu ao publicar o seu relato do julgamento de Eichmann, a filósofa foi impelida a reconsiderar e a repensar o conceito de banalidade do mal a fim de justificar o uso que ela fez dessa expressão.

É como estudante das obras de Agostinho que Hannah Arendt apreende que há mais na vida mental do que pensamento, e que a própria mente era “trinitária”; Qual deveria ser a real relação entre pensamento e a prática do mal? Qual é, contrariamente, sua relação com prática do bem, com a “moralidade”? Como podemos estudar o problema do mal num cenário inteiramente secular?

Arendt empenhou-se em responder essas questões em várias obras, dentre elas “A vida do espírito”, resultado de pesquisas formais sobre as atividades da mente, a saber, o que pensar, o querer e o julgar; e as séries de conferências sobre questões de filosofia moral e proposições morais básicas, no esboço sobre os tópicos dessas conferências Arendt aponta quatro questões: 1. Por que é melhor sofrer do que praticar o mal? Essa pergunta está associada à Sócrates; 2. Como posso distinguir o bem do mal? Pergunta associada à Kant; 3. O que significa pagar o bem com o mal? Pergunta associada à Jesus, Paulo e Agostinho; 4. Quem sou para julgar? Pergunta associada à Kant. Menciona Nietzsche no decorrer de todas as conferências ao examinar a atividade moral.

Podemos então indagar: Como a obra de Arendt reverbera nas questões contemporâneas acerca do mal? Em um artigo publicado em 1997 Richard J. Bernstein reexamina o relato de Hannah Arendt sobre o julgamento de Eichmann em Jerusalém e seu entendimento da banalidade do mal, com a intenção de compreender o que essa filósofa está dizendo e por quê. Ele acredita que a razão que o relato de Arendt é tão desconcertante é que ele nos compele encarar questões dolorosas sobre o significado do mal no mundo contemporâneo, o colapso moral da sociedade respeitável, a facilidade com que o ato de matar em massa se torna um comportamento aceitável e “normal”, a fraqueza da chamada voz da consciência e as formas sutis de cumplicidade e cooperações que “combinam” com os atos assassinos. Infelizmente, não são questões restritas aos horrores nazistas. Essas questões ainda estão conosco e exigem que lutemos com elas repetidamente.

No seu exame meticuloso Bernstein argumenta que Hannah Arendt não responde satisfatoriamente às questões que ela mesma levanta da conexão do pensamento e o problema do mal. Avalia que ela nos deixa com uma profunda e inquietante perplexidade.

Bernstein reconhece que mesmo sob as condições do terror mais extremo, algum indivíduo é capaz de resistir, julgar o que é certo e errado e agir de acordo com sua consciência. A questão que escapa a Arendt – e pode ser impossível responder – é como devemos explicar (de maneira não circular) o que explica as diferenças entre aqueles que ainda são capazes de julgar o que é mal e agir de acordo com suas consciências, e aqueles que perderam ou nunca tiveram essa habilidade.

Bernstein termina seu artigo mencionando a conclusão de Arendt acerca da história de Anton Schmidt, um sargento alemão que foi executado por ajudar os judeus. Ela nos diz que: “Os buracos do esquecimento não existem. Nada humano é tão perfeito, e simplesmente existem no mundo pessoas demais para que seja possível o esquecimento. Sempre sobra um homem para contar a história. […]a lição dessas histórias é simples e está ao alcance de todo mundo. Politicamente falando, a lição é que em condições de terror, a maioria das pessoas se conformará, mas algumas pessoas não. […] Humanamente falando, não é preciso nada mais, e nada mais pode ser pedido dentro dos limites do razoável , para que este planeta continue sendo um lugar próprio para a vida humana.” Suas reflexões nos remete às características da faculdade da vontade.

E para finalizar esse esboço, volto-me a leitura que Hannah Arendt faz de Agostinho, atribuindo a ele o título do primeiro filósofo da vontade. “[…] Mas qual foi, então o propósito de Deus ao criar o homem, porque Ele quis fazê-lo no tempo, este que Ele nunca fizera antes? indaga Agostinho. Sua resposta surpreendente, como assinala Arendt, “para que possa haver novidade, há de haver um começo; e esse começo jamais existiria antes”. Agostinho distingue este começo, do começo da criação usando a palavra “initium” para a criação do Homem, mas “principium” para a criação dos Céus e da Terra. Como homem criado à imagem do próprio Deus veio ao mundo um ser que, por ser um começo correndo para um fim, pôde ser dotado da capacidade de querer e não querer.

No Livro XI das Confissões atentamos que “o presente das coisas passadas está na memória, o presente das coisas presentes está na intuição do espírito, e o presente das coisas futuras está na expectativa. Ao lembrarmos que sempre sobra uma pessoa para contar a história, podemos ver nessa possibilidade um novo começo. Todo ser humano, sendo criado no singular, é um novo começo em virtude de ter nascido. A liberdade de espontaneidade é parte inseparável da condição humana. Seu órgão espiritual é a vontade. Vontade manifesta no querer contar a história, no querer um novo começo, no querer não se conformar com o mal.

Como você responde as perguntas de Hannah Arendt: “Será que o pensar  previne uma  pessoa de fazer o mal?

 

Obras Citadas:

Agostinho. Santo Agostinho: vida e obra. São Paulo: Nova Cultural, 1999

Arendt, Hannah. Eichmann em Jerusalém. São Paulo: Cia. das Letras, 1999

Arendt, Hannah. Pensamento e considerações morais. In: H. Arendt, A dignidade da política: ensaios e conferências. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1993

Arendt, Hannah. O querer (A vontade). In: H. Arendt. A vida do espírito: o pensar, o querer, o julgar. Rio de Janeiro: Relume Dumará. 1992

Bernstein, Richard J. The banality of evil reconsidered. In: C. Calhoun and J. McGowan. Hannah Arendt and the meaning of politics. Minneapolis, London: University of Minnesota

Kohn, Jerome. O mal e a pluralidade: o caminho de Hannah Arendt em direção à vida do espírito. In: O. Aguiar [et al.] Origens do totalitarismo: 50 anos depois. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Fortaleza, CE, Sec. Da Cultura e Desporto, 2001

 

Vamos  meditar

Vamos meditar

[Grupo de Meditação Cristã]  Encontro Mensal – quinta-feira 31/05/2018 das 16h-17h:30.

Medite por Trinta Minutos
Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração “Maranatha”. Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.

Leitura da Semana

“E não vos conformeis com este mundo, mas, transformai-vos, renovando a vossa mente” (Romanos 12, 2).

“A vida do espírito na natureza humana é uma contínua repadronização. O salto de fé, a cujo aperfeiçoamento dedicamos nossas vidas, é simplesmente o único salto pelo qual deixamos que nossas mentes sejam transformadas e, que todo nosso ser seja transfigurado. Em vez de lermos “este mundo”, leiamos “ego”: a parte que pensa que é o todo. Ele veio a bloquear involuntariamente e, a distorcer inconscientemente, o mistério da vida, em razão dos padrões que ele criou através da dor e da rejeição; a percepção de um mundo sem amor. [. . .]

Mesmo se a meditação nada mais fosse do que uma breve imersão diária no reino interior, mereceria nossa completa atenção. Porém, ela é mais do que uma fuga temporária da prisão de nossos padrões de medo e de desejo. Por mais complexos que sejam esses padrões, que nos fazem temer a morte e o verdadeiro amor que são necessários ao nosso crescimento e sobrevivência, a meditação os simplifica a todos. Dia após dia, meditação após meditação, esse processo de simplificação prossegue.

Gradualmente nos tornamos mais destemidos, até saborearmos a total liberdade do medo, na felicidade de nos sentirmos libertos das imagens e recordações do desejo. E, então, e, até mesmo antes disso, nos tornamos úteis aos outros, aptos a amar sem medo ou desejo. . . livres para servir o Ser, que é o Cristo interior. [Carta de Número Três. Laurence Freeman OSB, WEB OF SILENCE (London: Darton, Longman, Todd, 1996), pgs. 28-29, 31.]

Original em inglês:
An excerpt from Laurence Freeman OSB, “Letter Three,” WEB OF SILENCE (London: Darton, Longman, Todd, 1996), pp. 28-29,31.
“Adapt yourselves no longer to the pattern of this present world, but let your minds be remade and your whole nature thus transformed” (Romans 12:2).
The life of the spirit in human nature is a continual repatterning. The step of faith we spend our lives perfecting is simply the one step by which we let our minds be remade and our whole being transfigured. For “this present world” let us read “ego”: the part that thinks it is the whole. It has come involuntarily to block and unconsciously to distort the mystery of life because of the patterns it had formed through pain and rejection; the perception of a world without love. [. . . .]
Even if meditation were no more than a brief daily dip into the kingdom within us, it would merit our complete attention. But it is far more than a temporary escape from the prison of our patterns of fear and desire. Complex as these patterns are, making us fear the death and the true love that are necessary for our growth and survival, meditation simplifies them all. Day by day, meditation by meditation, this process of simplification proceeds.
We become gradually more fearless until, in the joy of being released from the images and memories of desire, we taste total freedom from fear. And then —and even before then— we become of use to others, able to love without fear or desire. . . released to serve the Self which is the Christ within.

Quem te acompanha no Natal?

Quem te acompanha no Natal?

“Na manjedoura estava calmo e bom…”  Leio Clarice Lispector aqui na Casa de Retiros, no morro das pedras.  Um final de semana para dedicar-me à escrita,  em silêncio estou. Durante as refeições, encontro-me com as pessoas integrantes de dois grupos que estão na casa: um em silêncio, outro não.

“Era tardinha, ainda não se via a estrela…” Leio Clarice. É bom saber quem te acompanha no silêncio e no espaço sagrado.

“Por enquanto o nascimento era só  de família. Os outros sentiam mas ninguém via. Na tarde já escurecida, na palha cor de ouro, tenro como um cordeiro refulgia o menino, tenro como o nosso filho. Bem de perto, uma cara de boi e outra de jumento olhavam, e esquentavam o ar com o hálito do corpo. Era depois do parto e tudo úmido repousava, tudo úmido respirava. Maria descansava o corpo cansado, sua tarefa no mundo seria a de cumprir o seu destino e ela agora repousava e olhava. José, de longas barbas, meditava; seu destino, que era o de entender, se realizava. O destino da criança era o de nascer. E os bichos ali se fazia e refazia: o de amar sem saber que amavam. A inocência dos meninos, esta a doçura dos brutos compreendia. E antes dos reis, presenteavam o nascido com o que possuíam: o olhar grande que eles têm e a tepidez do ventre que eles são.”

Leio Clarice,  atento como ela recorda, dá cordas ao coração ao narrar o nascimento de Jesus Cristo. Nessa semana, ao fazer minha resenha do módulo teologia sistemática, leio em Paul Tillich que a análise da situação humana emprega materiais disponibilizados  pela auto-interpretação criativa do ser humano em todos os âmbitos da cultura: na filosofia, na poesia, no drama, no romance, na psicoterapia, na sociologia. O teólogo organiza esses materiais em relação com a resposta  dada pela mensagem cristã às perguntas implícitas  na existência  humana.

“A humanidade é filha de Cristo homem, mas as crianças, os brutos e os amantes são filhos daquele instante na manjedoura. Como são filhos de menino, e seus erros são iluminados: a marca do cordeiro é o seu destino. Eles se reconhecem por uma palidez na testa, como a de uma estrela de tarde, um cheiro de palha e terra, uma paciência de infante…”

Leio Clarice, estamos em dezembro de 2017. Lembro-me com gratidão dos encontros no silêncio, das viagens, das pessoas e suas jornadas, das conversas dançadas entre o ver e o não ver, a mudança da minha mãe, a crescente autonomia da minha filha, o convívio familiar,  a redescoberta da fluidez das águas, o andar de mãos dadas, as novas e as eternas amizades… as palavras, a escrita, o jardim, o cheiro  do alecrim.

“Também as crianças, os pobres de espírito e os que se amam são recusados nas hospedarias. Um menino, porém, é o seu pastor e nada lhes faltará. Há séculos eles se escondem em mistérios e estábulos onde pelos séculos repetem o instante do nascimento: a alegria dos homens.”

Na manjedoura estava calmo e bom…

Quem tem acompanha no silêncio e no espaço sagrado?