Ritual da Descontinuidade

Ritual da Descontinuidade

Por Ida Mara Freire Foto de Cristiano Prim

“Converso muito com todos os moradores da casa. Falo até com os que permanecem em silêncio. Gosto do tempo que passo na janela olhando a vista. No começo, defini isso como um não fazer nada , mas agora percebo que esse olhar a vista pela janela é uma atividade em si. As tardes são longas e acordo com fome às 5h da manhã.” Essas palavras me chegam envolvidas em um papel azul com nuvens brancas, escritas no livro documento/ficção “rumor cena 11 + pedro franz”. Registros em desenhos e letras indagam sobre os vestígios de um grupo naquele que está só. Talvez, o espectador tenha também percorrido uma busca de vestígio interior ao presenciar o ritual de descontinuidade “Protocolo Elefante”, peça coreográfica do Grupo Cena 11 Cia. de Dança, dirigida pelo coreógrafo Alejandro Ahmed, apresentado na noite de sábado 20 de maio no Teatro Pedro Ivo, na abertura da décima edição do Múltipla Dança Festival Internacional de Dança Contemporânea.

A proposição de “Protocolo Elefante”, projeto selecionado Rumos Itaú Cultural, premiado pelo Funarte de Dança Klauss Vianna, Edital Elisabete Anderle, e apoiado pelo site de financiamento coletivo Catarse, ao investigar a metáfora de separação e exílio, na ação de afastamento e isolamento do elefante na iminência de sua morte, tendo como interlocução espelhada os artistas convidados Wagner Schwartz, Michelle Moura e Eduardo Fukushiman, e demais ações, questiona a definição de identidade, a necessidade de pertencimento e a própria noção de continuidade.

Num diálogo estético direto com o público estão Aline Blasius, Edú Reis Neto, Jussara Belchior, Marcos Klann, Mariana Romagnani e Natascha Zacheo,  ocupam e transitam entre palco, cadeiras e corredores, experimentam no demorar das quedas, na monotonia intensa dos giros, os modos de existir dos encontros com cada coisa que não é aquilo que se apresenta como si mesmo. Com os elementos de cena propostos por Roberto Gorgatti, vestidos com figurino assinado por Karin Serafin, e a preparação técnica de Malu Rabelo, criam um campo de presença desafiando o lugar de cada um num mundo legitimado pelo suor a escorrer pelo corpo, a respiração ofegante, e os atravessamentos da singularidade. Um universo cênico ao alcance das mãos da plateia que Hedra Rockenbach ilumina, discernindo fronteiras difusas entre o som e o movimento, diluindo o espaço entre aquele que observa a dança e aquele que a vive. Quem vê a dança sente-se impelido à despir de si mesmo e vestir-se da pele do outro ali exposta a dançar. Diante da parede enevoada, espera, não escolhe a fuga. Contempla   o sentido da nulidade que a todos invade ao sermos abandonados a nós mesmos. No movimento de habitar as névoas dessa nulidade, surpreende-se que nas próprias trevas se oculta também a própria luz. Parte dos giros de uma existência na vacuidade interior, para uma dança na transcendência envolta de azul, de espanto, reverência e consciência de mistério.

O palco vazio, o silêncio interno, os refletores acesos, posicionam o leitor e a leitora, apreciadores da dança, no tempo e no espaço do aqui agora, após refletir por noventa minutos, os vinte e três anos de existência do Grupo Cena 11 Cia. de Dança,   ecoa-se as palavras de seu diretor, Alejandro Ahmed, avatar da continuidade: “É preciso tempo para encarnar as ideias…”

 

(*) Pós- doutorado em Dança, Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul. Texto publicado no NDonline –  Jornal Notícias do dia, Caderno Plural 22/05/2017.

Insustentável Leveza

Insustentável Leveza

Por Ida Mara Freire(*) Foto de Cassiana dos Reis Lopes

“Aquela que aprendeu a se relacionar com o espaço tem atenção.”

…98…99… Quilos? Não. Esses são os números da senha das pessoas que entraram para completar a lotação do teatro SESC Prainha, domingo, 30 de abril, por volta das 20 horas, para assistir o trabalho solo da bailarina Jussara Belchior, intitulado “Peso Bruto”, premiado pelo Rumos Dança Itaú Cultural.  Demonstrando, com singular precisão um dos fatores do movimento, o peso, está Jussara Belchior, bailarina do Grupo Cena 11, mestranda do Ceart-Udesc,  a exibir a dramaturgia de Anderson do Carmo, e a reverberar sua interlocução com Soraya Portela. Indaga-nos, o que realmente está sendo pesado ali? Na análise do movimento de Rudolf Laban, o peso como elemento do esforço se apresenta ora firme ora suave; se mensurado objetivamente pela resistência, será forte ou fraco; se classificado pela sensação do movimento, será leve ou pesado.

“Aquela que detém o domínio de sua relação com o fator de esforço-peso tem intenção.”

Jussara Belchior, ocupa um lado frontal do palco, sentada numa banqueta de plástico branco, de onde observa despretensiosamente seus espectadores, enquanto esses se acomodam em suas cadeiras e no chão, ali bem pertinho dela. Silenciosamente, ela se movimenta na banqueta, explora níveis de inclinações, transferências de peso; sem pressa, oportuniza que a plateia acompanhe e sustente com o olhar cada um de seus gestos, enquanto seus cabelos lhe cobrem o rosto.

Em deslocamentos calculados, sua trajetória é abruptamente interrompida pelo som, que em alguns momentos quase imperceptível, em outros, intermitente, compõe a trilha assinada por Dimitri Camorlinga, que abriga o inesperado entre a sobreposição melódica e os ritmos, por vezes, desconexos.

Ao fundo do palco, ela, despe-se pouco a pouco, do figurino de Joana Kretzer Brandenburg, começando com seus óculos, e em seguida o seu vestido. Em lingerie preta bordada, mostra-se em casa, à vontade com seu corpo, que posa em distintas posições e ângulos espaciais,    figurando-se como as esculturas de Fernando Botero.  Um corpo para ser contemplado, como obra de arte. Arte de viver dançando, como noticiam seus pés, ancorando sua sutileza em botinas com cadarços bem atados.

“Aquela quando se ajusta no tempo, tem decisão”.

Banha-se de creme, inunda o ambiente de aroma floral. Bebe da cremosidade do iogurte, fazendo transbordar o ser, fartando-se do cuidar de si para apreciação dos olhos alheios. Esses guiados, pela luminosidade de Marcos Klann,   que dá visibilidade e circunscreve com cor o corpo que dança, criando cenas sensuais, cenários marítimos, inventa com luz narrativas paralelas na imaginação. O público é assim convidado a perde-se no deleite. Nas dobras da carne, abrir brechas para o espelhamento generoso, encerrando no corpo gordo que dança, passos que vão  deslizando para além das ofensas e inadequações cotidianas. A bailarina Jussara Belchior arrisca colocar no pêndulo da balança  no mundo dança, o peso bruto de sua corajosa plasticidade, no refletir da espectadora, a atriz Maria Emilia Faganello: uma exposição poética da corporeidade.

Abrindo caminho na plateia ela sai de cena, como aquela quando o esforço, através da fluência do movimento, encontra sua expressão: uma indiscutível e insustentável beleza do ser, que a leitora e a leitor perceberão com clareza ao assistir “Peso Bruto”.

(*)Pós-doutorado em Dança, Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul

Ensaio publicado  06/05/2017 no Caderno Plural do Jornal Notícias do dia.