Surpreendidos pela alegria

Surpreendidos pela alegria

Por Ida Mara Freire Foto de Cristiano Prim

O tempo nublado na tarde de domingo 21 de maio, não impediu que as crianças,  acompanhadas de  seus  familiares fossem ao Teatro Álvaro de Carvalho  para assistirem o espetáculo infantil “Para todos os seguintes”, dirigido  por Key Sawao e Ricardo Iazzetta, contemplado pelo Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna.  A peça criada para crianças,  faz parte da programação do Múltipla Dança Festival Internacional de Dança Contemporânea, e traz em si uma tonalidade intensiva de corpo, movimento, gesto, som, cor e luz, numa tal medida e modo, que tanto os pequenos como os adultos que as acompanham, acabam por serem surpreendidos pela alegria,  uma força ativa e de um devir infantil que envolve a todos os presentes.

Os acordes refinados da guitarra  de Ramiro Murillo  chegam em passos lentos.  Seguido pelos olhares atentos da plateia o músico se coloca no palco,  preparando a cena para o brincar. Carolina Minozzi, Key Sawao, Mauricio Flórez e Ricardo Iazzetta dançam, por 35 minutos,  ao frescor da  musica composta ao vivo, exibem no corpo  a   própria potência de mover, manifestam assim  o aspecto atemporal do viver alegremente. As  trajetórias traçadas por cada um, no espaço cênico artisticamente realizado por Hideki Matsuka,  levam aos encontros insólitos no espaço predominado pela cor vermelha  e intensificado pela percepção de si e do outro. O inesperado emerge da dança repleta de ritmos, das nuances dos papeis brilhantes e estouros coloridos,  do despertar da curiosidade  pela bola que se move  sozinha no palco ou da  enxurrada de bolinhas saltitantes, que enlouquece a garotada.  O jogo cênico de movimento que brinca com as possibilidades da mágica, para além de aposta na ilusão, investe-se  na alegria em provocar efeitos ilusionistas criados ora com objetos ora com o  próprio corpo e seus modos de  se mover.

A possibilidade do espetáculo “Para todos os seguintes” se abre para os diretores e dançarinos  Key Sawao e Ricardo Iazzetta, como fruto de uma pesquisa continuada tomada pelo afeto,  que procura criar uma ambiência   para as intensidades emergirem.  Como  na versão inicial do espetáculo apresentada para o público adulto, que  tinha como  sinopse:  “cinco pessoas dançam intensamente e desaparecem à olhos nus”. Ricardo Iazzetta descreve: “… anunciava um desaparecimento, que era a última coisa que acontecia, obviamente de um modo tosco, mas criando uma ilusão de desaparecimento.  E aí,  quando reacendia a luz  e gente não estava mais lá.  Para mim, do meu ponto de vista, restava um silêncio intenso, como se tudo aquilo que tivesse acontecido, reverberasse criando em quem vê movimentos da memória. Essas intensidades,  esses movimentos que acontecem nesse plano, é um pouco dos alicerces e sentidos  da dramaturgia que a gente pesquisa também.”

Deste modo, o Múltipla Dança 2017 surpreende,  a leitora e o leitor apreciadores  da dança contemporânea,  com sua programação que celebra a diferença e  sustenta a continuidade de uma dança fundada  na primeira atividade da alegria – o ato substancial que confere à consciência plenitude e significação.  A leitura do “Ensaio sobre a alegria” de Robert Misrahi,  inspira  mover-se por uma dança que inaugura  no corpo o ato de fundar valores e de conduzir o ser que dança à certeza de sua validade e à possibilidade de sua realização. Dançar é uma alegria, porque estabelecer a vida sobre as bases sólidas da corporeidade e da singularidade  é uma alegria. Deste modo, a dança confere portanto ao dançarino, por sua própria atividade de respiração e flexão, a alegria, que emerge de uma compreensão e de um conhecimento que nos dão o domínio sobre a nossa vida.  A alegria  de dançar sua vida pela compreensão de si e pelo conhecimento que se tem do mundo, pode ser conferida no livro que Marta Cesar  e  Jussara Xavier, diretoras do Múltipla Dança estão organizando, com textos inéditos de críticos, teóricos e artistas convidados, dentre eles, profissionais que participaram de alguma edição do festival, com  temas importantes como história, crítica, criação, pesquisa, inclusão e gestão da dança. Uma edição comemorativa aos 10 anos do Múltipla Dança. Os textos estão prontos e  as organizadoras pretendem  finalizá-lo e lançá-lo em breve.  E mais uma vez seremos surpreendidos com a alegria da dança que se quer dançar.

Texto Publicado na Jornal Notícias do Dia. Revista Caderno Plural em 27/05/2017.

 

Ritual da Descontinuidade

Ritual da Descontinuidade

Por Ida Mara Freire Foto de Cristiano Prim

“Converso muito com todos os moradores da casa. Falo até com os que permanecem em silêncio. Gosto do tempo que passo na janela olhando a vista. No começo, defini isso como um não fazer nada , mas agora percebo que esse olhar a vista pela janela é uma atividade em si. As tardes são longas e acordo com fome às 5h da manhã.” Essas palavras me chegam envolvidas em um papel azul com nuvens brancas, escritas no livro documento/ficção “rumor cena 11 + pedro franz”. Registros em desenhos e letras indagam sobre os vestígios de um grupo naquele que está só. Talvez, o espectador tenha também percorrido uma busca de vestígio interior ao presenciar o ritual de descontinuidade “Protocolo Elefante”, peça coreográfica do Grupo Cena 11 Cia. de Dança, dirigida pelo coreógrafo Alejandro Ahmed, apresentado na noite de sábado 20 de maio no Teatro Pedro Ivo, na abertura da décima edição do Múltipla Dança Festival Internacional de Dança Contemporânea.

A proposição de “Protocolo Elefante”, projeto selecionado Rumos Itaú Cultural, premiado pelo Funarte de Dança Klauss Vianna, Edital Elisabete Anderle, e apoiado pelo site de financiamento coletivo Catarse, ao investigar a metáfora de separação e exílio, na ação de afastamento e isolamento do elefante na iminência de sua morte, tendo como interlocução espelhada os artistas convidados Wagner Schwartz, Michelle Moura e Eduardo Fukushiman, e demais ações, questiona a definição de identidade, a necessidade de pertencimento e a própria noção de continuidade.

Num diálogo estético direto com o público estão Aline Blasius, Edú Reis Neto, Jussara Belchior, Marcos Klann, Mariana Romagnani e Natascha Zacheo,  ocupam e transitam entre palco, cadeiras e corredores, experimentam no demorar das quedas, na monotonia intensa dos giros, os modos de existir dos encontros com cada coisa que não é aquilo que se apresenta como si mesmo. Com os elementos de cena propostos por Roberto Gorgatti, vestidos com figurino assinado por Karin Serafin, e a preparação técnica de Malu Rabelo, criam um campo de presença desafiando o lugar de cada um num mundo legitimado pelo suor a escorrer pelo corpo, a respiração ofegante, e os atravessamentos da singularidade. Um universo cênico ao alcance das mãos da plateia que Hedra Rockenbach ilumina, discernindo fronteiras difusas entre o som e o movimento, diluindo o espaço entre aquele que observa a dança e aquele que a vive. Quem vê a dança sente-se impelido à despir de si mesmo e vestir-se da pele do outro ali exposta a dançar. Diante da parede enevoada, espera, não escolhe a fuga. Contempla   o sentido da nulidade que a todos invade ao sermos abandonados a nós mesmos. No movimento de habitar as névoas dessa nulidade, surpreende-se que nas próprias trevas se oculta também a própria luz. Parte dos giros de uma existência na vacuidade interior, para uma dança na transcendência envolta de azul, de espanto, reverência e consciência de mistério.

O palco vazio, o silêncio interno, os refletores acesos, posicionam o leitor e a leitora, apreciadores da dança, no tempo e no espaço do aqui agora, após refletir por noventa minutos, os vinte e três anos de existência do Grupo Cena 11 Cia. de Dança,   ecoa-se as palavras de seu diretor, Alejandro Ahmed, avatar da continuidade: “É preciso tempo para encarnar as ideias…”

 

(*) Pós- doutorado em Dança, Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul. Texto publicado no NDonline –  Jornal Notícias do dia, Caderno Plural 22/05/2017.