Presença Presente

Presença Presente

A Presença

Ela chega sorrindo. Caminhamos pela larga avenida. No Café a conversa se aprofunda. Fazemos o balanço das presenças e também das ausências. Equilibrando  nas mãos a xícara com o Cappuccino,   observo entre nós o presente:

O Gato

livro de autoria  de Bartolomeu Campos de Queirós

Ilustrado por Anelise Zimmermann

Editora Paulinas

Ao ler  o livro o presente se torna presença, penso na ilustradora de traços coloridos tão certeiros, delicados e rendados.

As palavras:

o gato, a noite, o silêncio

tudo se soma  como um novelo de veludo.

A noite expulsa o dia

e o mundo escuro se faz

Mas, entre a maciez do gato

dorme em seu corpo uma dor…

Se queres saber como numa noite o gato e a lua se amam em desmedido silêncio,

leia o livro “O Gato” e desfrute de uma bela experiência contemplativa.

Grata Ana pelo Presente repleto de Presenças.

De mãos dadas com você

De mãos dadas com você

Foto:  IdaMara Freire,  Flores, Pacific Grouve, Califórnia

O que aprendi ao ir ao show do Jerry Adriani, quando criança.

Ao ler no jornal sobre o falecimento do cantor Jerry Adriani, no dia 23 de Abril de 2017, ela lembrou que na sua meninice cantava as músicas e era fã desse artista integrante do movimento conhecido como Jovem Guarda. Certo dia, dos seus 8 anos de idade, soube pelas irmãs, na época adolescentes, que haveria um show do Jerry Adriani na cidade, nesse período morava no interior de São Paulo. Animada, começou a fazer planos e contar os dias para estar frente a frente com seu cantor predileto. Finalmente, o dia do show chegou, ela se arrumou colocando seu vestido novo, feito especialmente para o seu aniversário, costurado com um tecido leve, cor de laranja, com minúsculas bolinhas brancas, em relevo, gola redonda, com laço delicado, feito do mesmo tecido. As irmãs, sabendo que o pai , por razões religiosas, não aprovaria elas irem ao show, estavam tentando serem discretas, e ela, menina, estava literalmente, atrapalhando tudo, com sua declarada euforia. Rondando as irmãs mais que mosca em volta de fruta madura. E, quando saíram de casa, no meio da tarde, lá foi a menina chorando no encalce das irmãs, recusando lidar com a impossibilidade de não ir ao show e ouvir Jerry Adriani   cantar “Meu coração é de cristal só seu amor pode quebrar…”

Após o longo caminho que seguiu, atrás das irmãs, finalmente chegou o momento   que Jerry Adriani apareceu no palco, vestido com as roupas   que menina reconhecia das capas de revistas e dos discos de vinil que circulavam no quarto das irmãs, que ela, curiosamente, vasculhava quando estas não estavam por perto. A menina observou-o de longe, com seu olhar infantil, notando o charme peculiar do cantor. E ao ouvir sua inconfundível voz sentiu diluir todo o cansaço físico e apagar a fadiga emocional que ali a trouxe. E imersa ficou naquele mar da canção popular.

Mas, a menina não sabia que ao ir àquele show criaria seu “modus operandi” para lidar com a vida:

  1. preparar-se  e vestir-se bem;
  2. persistir em seu desejo, mesmo sem apoio de alguém;
  3. ao chegar lá, desfrute do show.

 

Os anos se passaram, em tempos em tempos, ela ainda percebe sua menina interior agindo assim, nos relacionamentos, no trabalho, na arte…

Recentemente, eis que ela se deparou conversando com a tal menina, de vestido cor de laranja com bolinhas brancas em relevo. Comentou que admirava sua determinação, sua vontade, e seu desejo de apreciação da arte. E querendo agradar perguntou para a criança: “Como podemos seguir daqui para frente?” E a menina, que sabe muito bem o quer, respondeu prontamente: “De mãos dadas com você!”

Ela sabe que andar de mãos dadas com uma menina, sugere um novo “modus operandi”:

  1. atentar-se para o ritmo do caminhar com o outro e aceitar sorrindo o convite para saltitar;
  2. favorecer que a menina solte de sua mão e apreciar que ela corra na sua frente;
  3. reconhecer que a reconciliação com o mundo começa dentro de si.

Como sua criança interior influencia o seu modo de agir na vida?

 

 

 

Um Deus que dança

Um Deus que dança

Ida Mara Freire

Título do livro do escritor português José Tolentino Mendonça, inspirado em Nietzsche, que escreveu  que só acreditaria num Deus  que dançasse.  Sim, eu acredito num Deus que dança e que doa também, e me convida para dançar e doar todos os dias, em silêncio, no jardim, com quem está próximo ou distante de mim.

Neste período de natividade  e de recomeço de ano escrevo aqui umas orações do livro de José Tolentino que revelam as qualidades de um Deus  doador e dançarino.

 

Que segredo tem o Natal?

“Pergunto-me, Senhor, que segredo tem o Natal? Há um milagre que acontece dentro de nós, só pode ser um milagre, pois é como se a vida se reacendesse. Contemplando o presépio, percebo que este é um milagre humaníssimo que Deus suscita aos nossos olhos. Ele amou-nos tanto que nos deu o seu próprio Filho. O milagre do Natal assenta sobre esse dom absoluto, que nos faz perceber que só somos à medida que nos damos. E que  vida renasce, como dádiva, na ponta dos dedos, no olhar, nas palavras.”

Todos os dias a vida recomeça

“É bom saber, Senhor, que todos os dias a vida recomeça. A força criadora da vida não se empalidece no labirinto dos afazeres, nem destroem a turbulência de certas geografias ou a penumbra de algumas horas. A vida, a nossa vida, mesmo frágil e trêmula é soberana. Pode sempre se refazer, se transfigurar, se vestir de música súbita. A vida parece-se à dança, humilde e fantástica, que os pássaros desenham – coisas para sabermos antes de todas as aprendizagens. ”

Que na dança a vida recomece em cada passo e em cada gesto de doação…