Insustentável Leveza

Insustentável Leveza

Por Ida Mara Freire(*) Foto de Cassiana dos Reis Lopes

“Aquela que aprendeu a se relacionar com o espaço tem atenção.”

…98…99… Quilos? Não. Esses são os números da senha das pessoas que entraram para completar a lotação do teatro SESC Prainha, domingo, 30 de abril, por volta das 20 horas, para assistir o trabalho solo da bailarina Jussara Belchior, intitulado “Peso Bruto”, premiado pelo Rumos Dança Itaú Cultural.  Demonstrando, com singular precisão um dos fatores do movimento, o peso, está Jussara Belchior, bailarina do Grupo Cena 11, mestranda do Ceart-Udesc,  a exibir a dramaturgia de Anderson do Carmo, e a reverberar sua interlocução com Soraya Portela. Indaga-nos, o que realmente está sendo pesado ali? Na análise do movimento de Rudolf Laban, o peso como elemento do esforço se apresenta ora firme ora suave; se mensurado objetivamente pela resistência, será forte ou fraco; se classificado pela sensação do movimento, será leve ou pesado.

“Aquela que detém o domínio de sua relação com o fator de esforço-peso tem intenção.”

Jussara Belchior, ocupa um lado frontal do palco, sentada numa banqueta de plástico branco, de onde observa despretensiosamente seus espectadores, enquanto esses se acomodam em suas cadeiras e no chão, ali bem pertinho dela. Silenciosamente, ela se movimenta na banqueta, explora níveis de inclinações, transferências de peso; sem pressa, oportuniza que a plateia acompanhe e sustente com o olhar cada um de seus gestos, enquanto seus cabelos lhe cobrem o rosto.

Em deslocamentos calculados, sua trajetória é abruptamente interrompida pelo som, que em alguns momentos quase imperceptível, em outros, intermitente, compõe a trilha assinada por Dimitri Camorlinga, que abriga o inesperado entre a sobreposição melódica e os ritmos, por vezes, desconexos.

Ao fundo do palco, ela, despe-se pouco a pouco, do figurino de Joana Kretzer Brandenburg, começando com seus óculos, e em seguida o seu vestido. Em lingerie preta bordada, mostra-se em casa, à vontade com seu corpo, que posa em distintas posições e ângulos espaciais,    figurando-se como as esculturas de Fernando Botero.  Um corpo para ser contemplado, como obra de arte. Arte de viver dançando, como noticiam seus pés, ancorando sua sutileza em botinas com cadarços bem atados.

“Aquela quando se ajusta no tempo, tem decisão”.

Banha-se de creme, inunda o ambiente de aroma floral. Bebe da cremosidade do iogurte, fazendo transbordar o ser, fartando-se do cuidar de si para apreciação dos olhos alheios. Esses guiados, pela luminosidade de Marcos Klann,   que dá visibilidade e circunscreve com cor o corpo que dança, criando cenas sensuais, cenários marítimos, inventa com luz narrativas paralelas na imaginação. O público é assim convidado a perde-se no deleite. Nas dobras da carne, abrir brechas para o espelhamento generoso, encerrando no corpo gordo que dança, passos que vão  deslizando para além das ofensas e inadequações cotidianas. A bailarina Jussara Belchior arrisca colocar no pêndulo da balança  no mundo dança, o peso bruto de sua corajosa plasticidade, no refletir da espectadora, a atriz Maria Emilia Faganello: uma exposição poética da corporeidade.

Abrindo caminho na plateia ela sai de cena, como aquela quando o esforço, através da fluência do movimento, encontra sua expressão: uma indiscutível e insustentável beleza do ser, que a leitora e a leitor perceberão com clareza ao assistir “Peso Bruto”.

(*)Pós-doutorado em Dança, Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul

Ensaio publicado  06/05/2017 no Caderno Plural do Jornal Notícias do dia.

 

 

De mãos dadas com você

De mãos dadas com você

Foto:  IdaMara Freire,  Flores, Pacific Grouve, Califórnia

O que aprendi ao ir ao show do Jerry Adriani, quando criança.

Ao ler no jornal sobre o falecimento do cantor Jerry Adriani, no dia 23 de Abril de 2017, ela lembrou que na sua meninice cantava as músicas e era fã desse artista integrante do movimento conhecido como Jovem Guarda. Certo dia, dos seus 8 anos de idade, soube pelas irmãs, na época adolescentes, que haveria um show do Jerry Adriani na cidade, nesse período morava no interior de São Paulo. Animada, começou a fazer planos e contar os dias para estar frente a frente com seu cantor predileto. Finalmente, o dia do show chegou, ela se arrumou colocando seu vestido novo, feito especialmente para o seu aniversário, costurado com um tecido leve, cor de laranja, com minúsculas bolinhas brancas, em relevo, gola redonda, com laço delicado, feito do mesmo tecido. As irmãs, sabendo que o pai , por razões religiosas, não aprovaria elas irem ao show, estavam tentando serem discretas, e ela, menina, estava literalmente, atrapalhando tudo, com sua declarada euforia. Rondando as irmãs mais que mosca em volta de fruta madura. E, quando saíram de casa, no meio da tarde, lá foi a menina chorando no encalce das irmãs, recusando lidar com a impossibilidade de não ir ao show e ouvir Jerry Adriani   cantar “Meu coração é de cristal só seu amor pode quebrar…”

Após o longo caminho que seguiu, atrás das irmãs, finalmente chegou o momento   que Jerry Adriani apareceu no palco, vestido com as roupas   que menina reconhecia das capas de revistas e dos discos de vinil que circulavam no quarto das irmãs, que ela, curiosamente, vasculhava quando estas não estavam por perto. A menina observou-o de longe, com seu olhar infantil, notando o charme peculiar do cantor. E ao ouvir sua inconfundível voz sentiu diluir todo o cansaço físico e apagar a fadiga emocional que ali a trouxe. E imersa ficou naquele mar da canção popular.

Mas, a menina não sabia que ao ir àquele show criaria seu “modus operandi” para lidar com a vida:

  1. preparar-se  e vestir-se bem;
  2. persistir em seu desejo, mesmo sem apoio de alguém;
  3. ao chegar lá, desfrute do show.

 

Os anos se passaram, em tempos em tempos, ela ainda percebe sua menina interior agindo assim, nos relacionamentos, no trabalho, na arte…

Recentemente, eis que ela se deparou conversando com a tal menina, de vestido cor de laranja com bolinhas brancas em relevo. Comentou que admirava sua determinação, sua vontade, e seu desejo de apreciação da arte. E querendo agradar perguntou para a criança: “Como podemos seguir daqui para frente?” E a menina, que sabe muito bem o quer, respondeu prontamente: “De mãos dadas com você!”

Ela sabe que andar de mãos dadas com uma menina, sugere um novo “modus operandi”:

  1. atentar-se para o ritmo do caminhar com o outro e aceitar sorrindo o convite para saltitar;
  2. favorecer que a menina solte de sua mão e apreciar que ela corra na sua frente;
  3. reconhecer que a reconciliação com o mundo começa dentro de si.

Como sua criança interior influencia o seu modo de agir na vida?