Conversas com a Criança que Vive em Mim

Conversas com a Criança que Vive em Mim

Quem de vocês já não ficaram paralisadas numa cama, se perguntando como que chegaram ali? Eu já. E foi numa situação dessa que pela primeira vez eu tive um encontro e uma conversa de igual para igual com minha criança interior. E desde então ela tem voz ativa nas decisões que tomo pela vida afora.

Na primavera de 1990, eu tive uma anemia aguda, que me fez ficar na cama por umas semanas. Eu estava morando nas comunidades L’Arche na bela cidade de Canterbury no sul da Inglaterra. Como vocês sabem eu sou do movimento, e estar paralisada, doente em uma cama, não faz muito parte do meu show. Mas, lá estava eu olhando aquela paissagem um dia nublado, e o verde novo das folhas anunciava a chegada da primavera, olhar através do vidro, me trouxe a lembrança um episódio que vivi quando eu tinha aproximadamente 6 anos de idade.

Um dia após a escola dominical um casal que não tinha filhos se aproximou da minha mãe e perguntou se a mãe cederia um de nós para fazer companhia para eles. Eu realmente estava cansada da tirania dos meus irmãos e irmãs e sem pensar muito, e para a surpresa da minha mãe, já me prontifiquei, adorando a ideia de ser filha única. Mas, lá estava eu olhando a janela , escutando a água correndo do riacho, e logo correndo dos meus olhos também. E a senhora, veio e me perguntou o que eu queria: Eu respondi eu quero ir para minha casa.

 Durante a minha formação, ao trabalhar com pessoas com necessidades especiais, a psicologia e a psicanálise são lentes muito utilizadas para perceber a realidade e as pessoas. Há uma técnica que se chama imaginação ativa aplicada pelo psicanalista Carl Gustav Jung, que se refere a interação com conteúdos do inconscientes, por exemplo,  quando uma memória é invocada, você acessa parte do seu inconsciente perguntando: O que essa lembrança tem a dizer para o momento atual da sua vida?

E foi isso que eu fiz. Perguntei para aquela menina de seis anos o que ela queria: e ela falou: Eu quero voltar para casa. Eu respondi que eu já era uma pessoa adulta e quem decidia a hora de voltar para casa era esse eu adulto, e não ela minha criança interior. Então, ela me perguntou? Bem, quem você acha que está sustentando você aqui na Inglaterra? Quem faz você cantar, sorrir, se divertir… pois, ela continua, sou eu, sua criança interior, para te manter aqui você me ouve, mas quando digo: quero voltar! Você não quer me ouvir…

Pensei… um mês depois tudo florido, flores com cores maravilhosas, chegou a hora da renovação do contrato. O país em crise,   Era de Collor de Mello… inflação nas alturas… sem previsão de emprego… sem dinheiro… Eu ouvi minha criança e resolvi voltar… colocando algumas condições… se em 18 meses eu não tivesse o padrão de vida que eu tinha na Inglaterra, eu sairia do país para não voltar. Bem… em menos de 6 meses eu já estava bem instalada, com emprego, fazendo o doutorado.

Como isso reverbera na pessoa que sou hoje: reconheço que há parte da minha história de vida que tempos em tempos vem me visitar, aparece em sonho, na memória, numa lembrança, num data, num objeto, numa fotografia. Quando chamo ela para conversar… eu falo… ela fala… e nesse diálogo… reconcílio com aspectos da minha psique   e vivo em paz comigo mesmo, e compreendo mais os outros.

Em que momento de sua vida que você se viu paralisada e teve uma conversa interior consigo mesma? O que aconteceu?

 

Bola de Meia, Bola de Gude
Milton Nascimento
Há um menino, há um moleque
Orando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mão
Há um passado no meu presente
O sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assombra
O menino me dá a mão
Ele fala de coisas bonitas que
Eu acredito que não deixarão de existir
Amizade, palavra, respeito
Caráter, bondade, alegria e amor
Pois não posso, não devo
Não quero viver como toda essa gente insiste em viver
Não posso aceitar sossegado
Qualquer sacanagem ser coisa normal
Bola de meia, bola de gude
O solidário não quer solidão
Toda vez que a tristeza me
Alcança o menino me dá a mão

Compositores: Fernando Brant / Milton Nascimento
Letra de Bola de Meia, Bola de Gude © EMI Music Publishing

# 2 PERGUNTAS PARA VOCÊ DANÇAR A SUA HISTÓRIA

# 2 PERGUNTAS PARA VOCÊ DANÇAR A SUA HISTÓRIA

Ida Mara Freire,  Desenho de  J.

“Os problemas significativos que enfrentamos não podem ser resolvidos no mesmo nível de pensamento em que estávamos quando os criámos.” Albert Einstein 

Você já parou para pensar que em vez de contar sua história você pode dança-la? Sim. Seria uma narrativa dançada, narrada de modo não-verbal, mais gestual; O dançar sua história sugere encontrar no corpo, na memória corporal, os gestos, as ações e as percepções que estão entre o movimento e o pensamento. É possível dançar quando as palavras não são suficientes. Espero que você possa perceber como o dançar nossa história pode  nos ajudar a compreender nossa existência e nos deixar à vontade no mundo.

Quem de vocês já não se sentiram estagnadas em algum momento da vida de vocês? Seja pelas circunstâncias financeiras, seja pelos relacionamentos? Ou problemas de saúde? Bloqueio criativo, intelectual ou espiritual? Eu já; e uma das formas mais notáveis da estagnação acontecer está na nossa dificuldade de lidar com a mudança. Ficamos empacadas.

Alguns anos atrás meu estilo de vida estava exigindo mudanças daquelas profundas. Eu estava com aquela sensação interior de água parada, com aquele odor sutil do apodrecimento por ausência de movimento. Comecei a me perguntar qual é o sentido da minha vida? Qual é o meu dom? E comecei a sorrir… O que o meu sorriso é? Um movimento da minha boca, um convite, uma manifestação da alegria… uma dança…

Qual seria então o propósito da minha vida? Como ofereço o meu dom para os outros? Se o meu sorriso é o meu dom, o que me faz sorrir é  fazer outras pessoas sorrirem também.   Talvez, eu deveria ser palhaço… Mas, se penso na alegria. Penso em reconciliação. Então, eu e minha filha fomos viver na África do Sul e estudar a reconciliação, manifesta num corpo nacional que dança. Que histórias aquele corpo dança? A reconciliação, dançar o perdão, voltar a sorrir depois da dor. Ou sorrir apesar da dor.

Minhas ações por menores ou maiores que sejam devem estar vinculadas com essas minhas perguntas… Levar e buscar minha filha em suas atividades artísticas tem a ver com o sentido da minha vida? Tomar a decisão de abrir mão da carreira profissional sustenta o meu propósito de vida? Sim. Levar minha filha me faz ver a dança na vida dela. Minha escolha pelo trabalho criativo permite atentar para as pessoas que eu amo e encorajar as pessoas na dança da vida.

Ao acompanhar a história de vida dançada de algumas pessoas   percebo que essas duas perguntas: Qual o sentido da vida? E qual o propósito da vida? reverberaram em suas vidas elucidando suas próprias indagações:

“Como encontrar no corpo o tempo para ser quem você é? ”

“Como criar com o efêmero?”

“ Como transformar a vida em cuidado de si?”

“Como lidar com o risco da alegria de aparecer no mundo”

“Como habitar o lugar rarefeito entre o não ver e o ser vista”

Em que momento de sua vida que seu corpo te ajudou a perceber qual o sentido e o propósito de sua vida?

Quer saber mais sobre isso agende a sua Jornada da Descoberta gratuita, pelo email: idamara@idamarafreire-com-br.umbler.net

Na Jornada da Descoberta você vivenciará uma breve experiência de como o seu corpo pode ajudar você sair da estagnação. Se “os problemas significativos que enfrentamos não podem ser resolvidos no mesmo nível de pensamento em que estávamos quando os criámos”, como nos recorda Albert Einstein,   a dança pode ser o movimento para voltarmos às coisas mesmas.

 

3# Segredos para você ser percebida enquanto fala

3# Segredos para você ser percebida enquanto fala

IdaMaraFreire – Foto Acic

Quando você está falando as pessoas estão prestando atenção em você?  Se  você não enxerga como saber isso? Na Conversa Dançada ocorrida na ACIC – Associação Catarinense de Integração do Cego, no final do mês de agosto, as pessoas participantes comentaram sua experiência de algumas vezes as pessoas sairem da sala sem avisarem e elas continuam falando,  literalmente, para as paredes.  Como isso  pode ser evitado?

Muitas vezes isso pode acontecer, primeiro, por esquecimento do interlocutor, ele não se lembra que a pessoa que ele está falando não está vendo que ele está a sair do local.  Outras vezes, podemos manter uma conversa, apenas para  mostrar ao outro que estamos presentes, se estamos no silêncio, em um lugar movimentado como saberemos se o outro, que não vê, vai perceber nossa presença?

No contato com pessoas com cegueira uma das questões apresentadas é acerca de como a pessoa que não vê é vista pelo outro.  As pessoas com cegueira, com baixa visão, ou  não visual, esses são os termos  que uso, pois, como tenho estudado, não se trata só de neologismo, a cegueira é uma experiência perceptiva do mundo, muito além daquilo que expressa o termo “deficiência  visual”,  usado comumente para identificar e categorizar esse grupo social.

Com o intuito de facilitar a comunicação entre as pessoas com e sem cegueira, proponho a Conversa Dançada   #3 segredos para você ser percebido enquanto  você fala.

Vamos explorar como nosso corpo pode nos ajudar  a estarmos presentes em nossas conversas e perceber o fluxo de diálogo com as pessoa que estamos a conversar.

#1  Lembrar-se de um episódio

Para estabelecer  uma conversa que desperte interesse da pessoa presente,  busque em seu corpo experiências que você consiga lembrar por inteiro, ou seja, com começo, meio e fim. Isso é, acesse sua memória episódica.

Por exemplo, Márcio relata: “No domingo ensolarado,  fiz um passeio  maravilhoso na praia.”

# 2 Usar palavras fortes.

Diga palavras que fazem sentido para você. Com isso estamos acessando nossa memória semântica.

#3 Perceber a emoção.

Reconhecer um sentimento  é aplicar um juízo em uma emoção. Desse modo acessamos a estética das emoções.

 

Em nossa Conversa Dançada, ouvimos a música “De volta ao Começo” cantada por Nana Caymmi; para acessarmos nossa memória episódica.

Identificamos  as palavras fortes:

“Saúde, Alegria, Sol,  Paz, Música, Passeio, Compromisso, Amor,  Agradecer, Amizade, Reflexão, Olhar”

Destacamos o movimento da voz ao  pronuncia-las;

Dançamos buscando aplicar ou identificar nos movimentos  a estética das emoções.

Ao terminar nossa Conversa Dançada –  apreendemos  em nossa experiência que “estar de corpo inteiro presente numa conversa exige uma escuta atenta de si, muita tranquilidade ao falar,  paz consigo mesmo e com os outros e isso faz  transparecer a segurança.”

E você quando está numa conversa quais são seus segredos para perceber o outro e ser percebida por ele atentamente?