Paisagens entre Corpos Terrestres e Celestes

Paisagens entre Corpos Terrestres e Celestes

O corpo deitado em posição fetal, em um leito hospitalar, permanece imobilizado pela memória de uma inseparável dor. As dezenas de embalagens de caixas de remédio em um armário de vidro transparece aquilo que ela expressa em cena, em tela, em branco, em preto e nas cores de uma palheta que imprime os tons da sua existência.   Silvana Macêdo, professora do PPGAV, Udesc, atuante nas áreas de pintura, instalação e artes midiáticas, exibiu recentemente na Galeria Municipal de Arte Pedro Paulo Vecchietti e no Memorial Meyer Filho, as exposições “Entranhas” e  “Mácula,” com curadoria de Juliana Crispe, o projeto expositivo também contou com duas apresentações da performance “Maculada”.

O apreciador das obras da exposição “Entranhas”, possivelmente percebeu que a artista desvela poeticamente uma taxonomia das paisagens interiores de um corpo demarcado pela doença auto-imune Lupus Eritematoso Sistêmico. Em tela, os órgãos, tecidos e células que se confundem com folhas, galhos, raízes e com ambientes subaquáticos, ilustram o trajeto de dentro e de fora de uma incansável busca pela cura. “Existe uma estranha relação entre desejo e distância. Muitas vezes, o desejo por aquilo que está fora do alcance cresce com a distância através de uma nostalgia espacial. É essa dinâmica que inverte distâncias ao fortalecer a presença imaginada daquilo que está longe”, escreve Silvana Macêdo, demonstrando outras dimensões atribuída ao corpo no espaço.

Em “Mácula”, na exposição composta por pinturas em nanquim, gravura em metal, performance e instalação, a artista aprofundou a investigação das relações intracorporais que reverberam nos órgãos: coração, baço, timo e rim. Através da fluidez dos efeitos plásticos das aguadas, ofereceu ao espectador a delicada experiência contemplativa da vida gestada no coração.

Na performance “Maculada”, Silvana, fez de seu corpo uma tela, na qual delineia ritualisticamente os pontos sensíveis da memória. Manchas que tenta apagar com gestos que encenam limpeza e purificação. Na parede soletra sua técnica: palavras gravadas no corpo com incisão direta da perda e banhos do perdão.

Mas, leitor e leitora, como que essa poética de um corpo no espaço terrestre mesclado pelas experiências vividas e suas memórias, se relaciona com uma poética de corpos celestes? Essa e outras indagações poderão ser exploradas na Roda de Conversa no evento “Arte & Ciência” e na Exposição vídeo instalação “lua & oceanos (a lua e a dialética da separação)”,  com Silvana Macêdo, a participação da artista finlandesa Henna Asikainen e a presença do astrofísico Reza Tavakol, dia 22 novembro, às 20hs, no Museu da Imagem e do Som.

Publicado  no Caderno Plural do Jornal Notícias do dia 18-19 de Novembro 2017

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Pergunta: O que você cria com a sua dor?

Jornadas Inacabadas

Jornadas Inacabadas

Apresentação do ebook 

Penso que nossa existência é uma jornada a ser dançada. Uma dança que se compõe com o outro. Por muito tempo em minha vida nutri  a ideia que a vida era uma batalha a ser travada, e estava aqui para lutar. Lutei. Mas, um momento de dor e de perda fez-me perceber que estou aqui para viver plenamente e que a vida não é só lutar consigo mesma e com o outro, mas é também celebrar a coexistência.

Esse livro é fruto de várias pesquisas e experiências acadêmicas.   Durante  o curso de doutorado,  ao observar a transição do período sensório-motor para inteligência representativa de crianças  com e sem cegueira, minha experiência como dançarina  possibilitou perceber  com mais nitidez o papel do corpo na linguagem  oral e na experiência do pensamento.  No transcorrer da minha trajetória como professora no curso de Pedagogia,  identifiquei  como a dança é fundamental para o processo de inclusão da crianças com necessidades especiais.   A participação de intercâmbios entre professores da brasileiros e ingleses,  oportunizou acompanhar vários projetos de ensino de dança nas escolas públicas inglesas, mostrando como  crianças e  jovens podem aprender  a dançar no contexto escolar e como seus professores podem ensiná-las. Com essa motivação comecei a ensinar dança para jovens e adultos com cegueira envolvendo alunas do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Santa Catarina e  estudantes da Associação Catarinense de Integração do Cego. A  pesquisa de vários métodos de dança moderna e contemporânea que possibilita uma pessoa que não vê apreciar a dança, levou-me a criação das “Jornadas”, um processo criativo de experiências de ensino e apreciação  de dança, tendo como foco a história de vida da pessoa que dança. Dançar a nossa história pode restaurar nosso equilíbrio corporal, mental e espiritual. É o que constatei encorajando muitas pessoas durante as “Jornadas”.

Os ensaios selecionados para a edição desse livro, como vocês irão notar, são reverberações de diferentes fases desse processo criativo. Ao compreender que a vida é dança,  os quatros ensaios aqui apresentados buscam descrever como as experiências com o outro  desvelam  a dança como uma jornada inacabada.  Que a leitura  desse livro seja uma jornada no invisível e no silêncio que te aproxima  de si mesmo e do outro na dança da vida.

 

Sumário 
 

Dançar

Além do belo, o movimento

Jornadas

A condição dos olhos:  a experiência estética

Escrituras inacabadas:

Que sei eu?

 

Agradecimentos 

A ACIC – Associação Catarinense de Integração do Cego e  dançarinos e dançarinas não-visuais  do Potlach  Grupo de Dança   expresso aqui o meu apreço. Às alunas do curso de Pedagogia e da Disciplina Dança no Espaço Escolar e as participantes do Projeto de Extensão Jornadas sou grata pela confiança e a disponibilidade.

Ao Prof. Dr. Marcos José Müller sou grata pelas inspiradas aulas acerca da Fenomenologia  de Maurice Merleau-Ponty. À Márcia Lerinna por  me fazer “voltar as coisas mesmas”. À Jaqueline Romão Ferreira pela escuta dedicada dos meus sonhos. À Marisa Naspolini  testemunha  ocular de processos criativos.  À Maria Aparecida Leite  por  acreditar nas Jornadas. Diana Guilardengui, Sandra Meyer, Jussara Xavier, Vera Torres, Marta César agradeço pelo companheirismo na dança.

Aos integrantes do Alteritas  – Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Diferença, Arte e Educação,  Ana Cristina Zimmermann, Rodrigo Rosso Marques, Valeska Figueiredo, Sandra Adão, Maria Aparecida Clemêncio, Gardia Claudia Venturi,  Rodrigo Gonçalves, Mariene  Perobelli, Gilmar Azeredo, Rogaciano Rodrigues,  agradeço a interlocução. À Fabiana Grassi Mayca  por entrar de corpo e alma na dança da vida. À Fernanda Albertina Garcia  pelas horas  extras dedicadas a preencher os formulários dos editais em busca de apoio financeiro para atividades do Alteritas e do Potlach. À Amanda Massucci Batista cuja alegria  toca os nossos corações.

Aos colegas do Departamento Estudos Especializados em Educação expresso aqui minha gratidão pela credibilidade em meus projetos criativos. Às Professoras  Terezinha Cardoso, Vânia Beatriz Monteiro,  Olga Celestinas Duran pela conversa nossa de cada dia.Aos colegas e estudantes,   do Programa de Pós-Graduação em Educação, ao Centro de Ciências da Educação e a Universidade Federal de Santa Catarina sou grata pelas condições de trabalho oferecidas, ao apoio na participação em eventos e pelo espaço de interlocução.

À CAPES pelo apoio recebido para participação de viagem de estudo  e participação de eventos no exterior. À comunidade universitária da York University – Toronto pela acolhida, e os excelentes serviços bibliotecários. À FAPESC pelo apoio financeiro concedido para realização deste projeto, bem como pela bolsa de Mérito Acadêmico concedida para a discente Fernanda Albertina Garcia. Ao Programa PIBIC, UFSC/CNPQ  agradeço a bolsa concedida à discente Amanda Massucci Batista.

Conversas com a Criança que Vive em Mim

Conversas com a Criança que Vive em Mim

Quem de vocês já não ficaram paralisadas numa cama, se perguntando como que chegaram ali? Eu já. E foi numa situação dessa que pela primeira vez eu tive um encontro e uma conversa de igual para igual com minha criança interior. E desde então ela tem voz ativa nas decisões que tomo pela vida afora.

Na primavera de 1990, eu tive uma anemia aguda, que me fez ficar na cama por umas semanas. Eu estava morando nas comunidades L’Arche na bela cidade de Canterbury no sul da Inglaterra. Como vocês sabem eu sou do movimento, e estar paralisada, doente em uma cama, não faz muito parte do meu show. Mas, lá estava eu olhando aquela paissagem um dia nublado, e o verde novo das folhas anunciava a chegada da primavera, olhar através do vidro, me trouxe a lembrança um episódio que vivi quando eu tinha aproximadamente 6 anos de idade.

Um dia após a escola dominical um casal que não tinha filhos se aproximou da minha mãe e perguntou se a mãe cederia um de nós para fazer companhia para eles. Eu realmente estava cansada da tirania dos meus irmãos e irmãs e sem pensar muito, e para a surpresa da minha mãe, já me prontifiquei, adorando a ideia de ser filha única. Mas, lá estava eu olhando a janela , escutando a água correndo do riacho, e logo correndo dos meus olhos também. E a senhora, veio e me perguntou o que eu queria: Eu respondi eu quero ir para minha casa.

 Durante a minha formação, ao trabalhar com pessoas com necessidades especiais, a psicologia e a psicanálise são lentes muito utilizadas para perceber a realidade e as pessoas. Há uma técnica que se chama imaginação ativa aplicada pelo psicanalista Carl Gustav Jung, que se refere a interação com conteúdos do inconscientes, por exemplo,  quando uma memória é invocada, você acessa parte do seu inconsciente perguntando: O que essa lembrança tem a dizer para o momento atual da sua vida?

E foi isso que eu fiz. Perguntei para aquela menina de seis anos o que ela queria: e ela falou: Eu quero voltar para casa. Eu respondi que eu já era uma pessoa adulta e quem decidia a hora de voltar para casa era esse eu adulto, e não ela minha criança interior. Então, ela me perguntou? Bem, quem você acha que está sustentando você aqui na Inglaterra? Quem faz você cantar, sorrir, se divertir… pois, ela continua, sou eu, sua criança interior, para te manter aqui você me ouve, mas quando digo: quero voltar! Você não quer me ouvir…

Pensei… um mês depois tudo florido, flores com cores maravilhosas, chegou a hora da renovação do contrato. O país em crise,   Era de Collor de Mello… inflação nas alturas… sem previsão de emprego… sem dinheiro… Eu ouvi minha criança e resolvi voltar… colocando algumas condições… se em 18 meses eu não tivesse o padrão de vida que eu tinha na Inglaterra, eu sairia do país para não voltar. Bem… em menos de 6 meses eu já estava bem instalada, com emprego, fazendo o doutorado.

Como isso reverbera na pessoa que sou hoje: reconheço que há parte da minha história de vida que tempos em tempos vem me visitar, aparece em sonho, na memória, numa lembrança, num data, num objeto, numa fotografia. Quando chamo ela para conversar… eu falo… ela fala… e nesse diálogo… reconcílio com aspectos da minha psique   e vivo em paz comigo mesmo, e compreendo mais os outros.

Em que momento de sua vida que você se viu paralisada e teve uma conversa interior consigo mesma? O que aconteceu?

 

Bola de Meia, Bola de Gude
Milton Nascimento
Há um menino, há um moleque
Orando sempre no meu coração
Toda vez que o adulto balança
Ele vem pra me dar a mão
Há um passado no meu presente
O sol bem quente lá no meu quintal
Toda vez que a bruxa me assombra
O menino me dá a mão
Ele fala de coisas bonitas que
Eu acredito que não deixarão de existir
Amizade, palavra, respeito
Caráter, bondade, alegria e amor
Pois não posso, não devo
Não quero viver como toda essa gente insiste em viver
Não posso aceitar sossegado
Qualquer sacanagem ser coisa normal
Bola de meia, bola de gude
O solidário não quer solidão
Toda vez que a tristeza me
Alcança o menino me dá a mão

Compositores: Fernando Brant / Milton Nascimento
Letra de Bola de Meia, Bola de Gude © EMI Music Publishing