Os Oceanos de Deus | The Oceans of God

Os Oceanos de Deus | The Oceans of God

Leitura de Domingo, 10 Janeiro 2016
John Main, OSB

Extraído de  John Main OSB, “The Oceans of God” (December 1982), THE PRESENT CHRIST (New York: Crossroad, 1991), pgs. 222-23, 226.

Nossa vida é uma unidade porque está centrada no mistério de Deus. Mas para conhecer essa unidade temos que olhar para além de nós mesmos e, com uma perspectiva maior do que aquela com a qual geralmente olhamos, quando nossa principal preocupação é o interesse por nós mesmos. Apenas quando começamos a abandonar o auto-interesse e a auto-consciência, é que essa perspectiva maior começa a se abrir. Uma outra forma de dizer que nossa visão se expande, é dizer que nós conseguimos ver além das meras aparências, em direção à profundidade e ao significado das coisas… não apenas…em relação a nós mesmos mas…ao todo do qual fazemos parte. Esse é o caminho do verdadeiro auto-conhecimento e, é por isso que o verdadeiro auto-conhecimento é idêntico à verdadeira humildade. A meditação nos revela essa preciosa forma de conhecimento, [e] esse conhecimento se transforma em sabedoria… uma vez que conheçamos, não mais por análise e definições, mas por participação na vida e no espírito de Cristo. [. . .]
A maior dificuldade é começar, dar o primeiro passo, lançar-se na profundidade e na realidade de Deus, tal como revelada em Cristo. Uma vez que tenhamos deixado para trás as praias do nosso próprio eu, rapidamente, navegamos nas correntes da realidade que nos dão direção e impulso. Quanto mais quietos e atentos estivermos, mais sensivelmente responderemos a essas correntes. E, então, nossa fé se torna mais absoluta e, verdadeiramente, espiritual. Pela quietude no espírito, nos movemos em direção ao oceano de Deus. Se tivermos a coragem de sairmos das praias, não fracassaremos em encontrar essa direção e energia. Quanto mais nos distanciamos, mais fortes se tornam as correntes e mais profunda a nossa fé. Por algum tempo, o paradoxo de que o horizonte ao qual nos destinamos está sempre recuando, desafia a profundidade da nossa fé. Para onde estamos indo com essa fé mais profunda? Gradualmente reconhecemos o significado da corrente que nos guia, e compreendemos que o oceano é infinito.

original em inglês:

From John Main OSB, “The Oceans of God” (December 1982), THE PRESENT CHRIST (New York: Crossroad, 1991), pp. 222-23, 226.
Our life is a unity because it is centered in the mystery of God. But to know that unity we have to see beyond ourselves and with a perspective greater than we generally see with, when self-interest is our dominant concern. Only when we have begun to turn from self-interest and self-consciousness does this larger perspective begin to open. Another way of saying that our vision expands is to say that we come to see beyond mere appearances, into the depth and interconnected meanings of things, not just in relation to ourselves but . . .to the whole of which we are part. This is the way of true self-knowledge and it is why true self knowledge is identical with true humility. Meditation opens up for us this precious form of knowledge, [and] this knowledge becomes wisdom . . when we know no longer by mere analysis and definition but by direct participation in the heart in the spirit of Christ. [. . . .]

The greatest difficulty is to begin, to take the first step, to launch out into the depth of the reality of God as revealed in Christ. Once we have left the shore of our own self we soon pick up the currents of reality that give us our direction and momentum. The more still and attentive we are, the more sensitively we respond to these currents. And so the more absolute and truly spiritual our faith becomes. By stillness in the spirit we move into the
ocean of God. If we have the courage to push off from the shore we cannot fail to find this direction and energy. The further out we travel the stronger the current becomes, and the deeper our faith. For a while the depth of our faith is challenged by the paradox that the horizon of our destination is always receding. Where are we going with this deeper faith? When will we arrive? Then, gradually we recognize the meaning of the current that guides us and see that the ocean is infinite.

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração “Maranatha”. Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.

Escrita do Corpo

Escrita do Corpo

Muito mais que entretenimento, a dança nas escolas proporciona autoconhecimento e expressão artística

Por Eliza Dinah

A Dança na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental não se resume a movimentar-se ao som de música. Diz respeito, sim, ao reconhecimento do corpo e de suas possibilidades e limitações espaciais e temporais. Para Ida Mara Freire, professora do Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), dançar pode ser comparado ao ato de escrever. “A dança é uma escrita corporal no mundo. Você está escrevendo seu movimento, deixando sua marca, mostrando o modo como lida com tempo e espaço”, explica. Para a professora, é possível comparar as informações recebidas e passadas para o corpo tanto no ato de dançar como na escrita manual: a pressão que se põe no lápis e a pressão sobre o chão ou outra superfície; a variação da forma da letra e dos movimentos corporais de acordo com as emoções do momento; o papel e o ambiente como espaços a serem preenchidos.

Além da relação motora, essa ‘escrita’ também tem elementos biográficos. Gabriela Córdova, dançarina e doutoranda em Artes pela Escola de Belas Artes da UFMG, destaca que a dança “faz parte da vida das pessoas”. “Todos têm a dança na sua história familiar, na sua história de vida. Os alunos têm histórias pra contar.” Em uma das escolas acompanhadas por Gabriela, que coordena a área de Dança do Programa de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID) na Faculdade de Educação da UFMG, foi montado um mural para interagir com os estudantes e com a comunidade sobre suas relações com essa forma de arte. “Dança é a sintonia entre seus movimentos corporais com a música, tirando o funk, que não é considerado música na minha opinião” e “Dança são várias danças diferentes, como o balé, o frevo e etc” foram algumas das frases depositadas na urna do projeto, relata Gabriela. “Considerando o capital cultural do aluno, não há certo e errado. O que tem ali são experiências sobre as quais a gente vai refletir, problematizar”, ressalta.

Também pode ser uma escrita inventiva, como a da poesia. Por isso, dar liberdade e autonomia às crianças é fundamental, como defende a professora de Dança no Centro Pedagógico da UFMG Marlaina Roriz. “Os alunos são criativos, fazem coisas super contemporâneas que às vezes nem têm noção que estão fazendo. E é uma dança deles, eles criaram”, afirma a professora. No fim do último semestre, Marlaina conta que cada criança alcançou seu próprio “produto final”, resultado do processo que a turma vivenciou. “Alguns escolheram água, alguns escolheram zumbi, outros trabalharam temáticas de gênero. A dança na escola é isso: acolher os contextos de cada um, um pouco da história de cada um. Que isso seja democrático e que seja potente”, finaliza.

A dança, considerada como uma escrita ampla, é capaz de criar e questionar visões de mundo. Danças tradicionais, manifestações populares, danças sociais, de salão, de academia, religiosas, contemporâneas, clássicas, modernas, danças somáticas, criativas, de rua, afro: uma infinidade de possibilidades. “A dança escolar trabalha com todas elas. Pode fazer desconstrução disso, releitura, proposições, criações. Aí vai da capacidade do professor de proporcionar abertura”, finaliza Ida Mara.

Afirmação como arte

Mesmo abrindo um vasto campo de possibilidades, a Dança ainda é pouco valorizada nas escolas como área do conhecimento. Marlaina Roriz explica que uma das maiores dificuldades está no fato de que “o professor tem ainda a dificuldade de se ver enquanto corpo”. Como consequência, a corporeidade da criança também acaba por não ser potencializada, afirma Marlaina. “Eu vejo na escola, de um modo geral, a ideia de que o aluno disciplinado é aquele que não se movimenta, é aquele que fica sentado na carteira, que aprende sentadinho sem se mexer”, completa.

Carina Pereira, formada em Dança pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e professora da rede pública de Indaiatuba (SP), acrescenta que, nas escolas, a área é ainda muito identificada apenas como entretenimento. “Não que as pessoas não valorizem a dança. Mas elas não valorizam como uma área de interesse com um valor específico e individual”, aponta. Carina relata que é comum os professores de Dança receberem dos colegas pedidos de coreografia para eventos nas escolas. Quando isso acontece com Carina, ela busca explicar que os resultados dessa disciplina devem ir muito além de apresentações: é um trabalho que exige criatividade, integrando o corpo a imagens, músicas, textos etc. “Começa com a vivência através da música, para depois os alunos irem se familiarizando com o som, e então a gente faz atividades práticas utilizando aquela música.” Explorando folclore, brincadeiras e danças populares, a professora busca relacionar o trabalho com outras manifestações artísticas. “Existe sempre algum momento com desenho, pintura, colagem etc. Porque também é preciso contemplar atividades de outras áreas da arte”, conclui.